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Gigante espanhol do século XIX usou a face sensacionalista do jornalismo para escrever a própria história

Por Mauro César Silveira

Tinha tudo para ser mais uma trajetória sofrida daquele ser humano acometido por uma disfunção hormonal e explorado comercialmente graças ao interesse mórbido de muitas pessoas. Tinha tudo para ser muito parecido à infelicidade de tanta gente exposta publicamente no século XIX, com anomalias ou doenças raras, como o inglês John Merrick, levado às telas de cinema por David Lynch no filme O Homem Elefante, de 1980. Afinal, eram tempos de espetacularização das anormalidades em nome do dinheiro fácil: a mulher barbuda, o homem cobra, as gêmeas siamesas… “Atrações” que ocupavam, com destaque, as páginas dos jornais europeus na obsessiva busca por mais leitores e leitoras.

Mas com o basco Miguel Joaquín Eleicegui, popularmente chamado de Gigante de Altzo, não foi bem assim. Até poucos anos atrás, no imaginário social espanhol, reforçado pelo sucesso de público e crítica da obra cinematográfica Handia, de 2017, de Aitor Arregi e Jon Garaño, que conquistou 10 prêmios Goya no ano seguinte, sua história também era conhecida como a de uma aberração que se submeteu aos maus tratos e à exibição pública pela sua condição de absoluta miséria. Coube ao historiador Luis Ángel Sánchez Gómez, professor titular de Antropologia Cultural da Universidad Complutense de Madrid, desconstruir essa imagem, desvelando o passado de Eleicegui através de rigorosa pesquisa acadêmica que resultou no livro El Gigante de Altzo: un vasco mítico (aunque muy real) en la Europa del siglo XIX. Lançada no ano passado pela Diputación Foral de Gipuzkoa, órgão administrativo com sede em San Sebastián, a capital da província de Guipúscoa, na Comunidade Autônoma do País Basco, a obra lança luzes sobre esse mítico personagem dessa região norte da Espanha, que viveu entre os anos 1818 e 1861.

Ao contrário do que se pensava, o gigante foi protagonista da sua própria história, segundo o historiador Sánchez Gómez. Oriundo de uma família rural da diminuta localidade basca de Altzo, ainda hoje, em 2020, com menos de 400 habitantes, Miguel Joaquín Eleicegui se aproveitou da sua imponente estatura, que atingiu 2,42 metros de altura nos últimos anos de existência, para se projetar pelas principais cidades europeias daquela época. Depois de ser exibido por um cobiçoso comerciante da cidade basca de Bilbao, aos poucos, foi assumindo o controle das apresentações públicas e determinando ele mesmo os rumos da sua vida. Como a curiosidade também era grande entre a realeza, Eleicegui foi recebido em diferentes palácios: na Espanha, pela rainha Isabel II, em Portugal, pela rainha Maria II, na França, pelo rei Luís Felipe I, e no Reino Unido, pela rainha Vitória, entre outros monarcas.

Foram mais de 90 reportagens com manchetes nas primeiras páginas dos jornais da Inglaterra e seis meses ininterruptos de espetáculos em Londres. Tanto sucesso permitiu que Eleicegui encomendasse uma diligência adaptada ao seu tamanho para viajar pelas estradas do interior daquele país e da França.

Embora reconheça qualidade artística no filme Handia, Sánchez Gómez desmonta a imagem do basco como um homem totalmente desprovido de recursos e que, por isso, precisava expor sua figura colossal em troca de dinheiro para sobreviver. Eleicegui herdara duas casas de campo da família e era considerado um cidadão de posição econômica média naquele século. Padecendo de acromegalia – doença que resulta da produção excessiva do hormônio do crescimento e atualmente tem tratamento -, ele percebeu que suas dimensões extraordinárias poderiam ajudá-lo a realizar o sonho de viajar e conhecer outros lugares. Com o apoio do pai e de um de seus outros oito irmãos, passou a promover espetáculos com ingressos “nada baratos”, de acordo com o historiador, ostentando roupas que variavam de trajes turcos a uniformes do exército espanhol, e onde ele costumava “agitar os braços sobre os chapéus da plateia”.

Eleicegui em xilogravura de Pablo Alabern Imagem: Biblioteca Nacional de España

Uma das apresentações em Madri foi descrita assim pelo jornalista Enrique Gil, na edição de 1º de janeiro de 1844 do El Laberinto: Periódico universal: “Longe de oferecer um espetáculo repugnante como o de outros fenômenos que costumam se alojar de vez em quando no recinto da cidade coroada de Madri, Eleicegui apresenta um admirável conjunto de beleza em perfeição e harmonia que se destacam por suas dimensões colossais, que pode ser colhido do retrato que serve para ilustrar essas notas”. O autor do texto também observava que o basco se exibia com diferentes trajes, com destaque para uma elegante vestimenta turca, e que todos “lhes assentavam perfeitamente”.

O jornalismo, aliás, cumpriu um papel fundamental para a projeção desejada por Eleicegui. O habitual registro sensacionalista das exibições de determinadas anormalidades físicas serviu para que ele se popularizasse rapidamente e se convertesse numa figura pública. Seu encontro com a Rainha Vitória, em audiência concedida no Palácio de Buckingham, no dia 24 de junho de 1848, com grande repercussão na imprensa europeia, renderia um status a mais: o uso do brasão real nos cartazes que anunciavam suas apresentações. Com isso, o resultado da turnê britânica superaria todas as expectativas. Foram mais de 90 reportagens com manchetes nas primeiras páginas dos jornais da Inglaterra e seis meses ininterruptos de espetáculos em Londres. Tanto sucesso permitiu que Eleicegui encomendasse uma diligência adaptada ao seu tamanho para viajar pelas estradas do interior daquele país e da França.

O livro Altzo: un vasco mítico (aunque muy real) en la Europa del siglo XIX nos mostra um personagem envolvente, bem distinto dos clichês do imaginário popular, que o descrevem como um ser triste, manipulável e ansioso para voltar à sua remota cidade natal.

Gravura do basco na revista literária ilustrada francesa Musée des familles em 1850

A célebre revista satírica Punch também surfou na fama do “spanish giant”, como ele era denominado na publicação, para aumentar o número de leitores e atrair novos assinantes.  No auge da temporada britânica, apresentou um desenho rabiscado dos pés e de parte das pernas do imenso espanhol, anunciando que a ilustração da figura de Eleicegui apareceria completa na edição seguinte. Uma semana depois, Eleicegui surgiu, garboso, vestindo um fraque, com gravata borboleta, e o cabelo curto, cuidadosamente penteado para o lado. Completa o conjunto a surpresa dos minúsculos espectadores e o olhar de superioridade do gigante.

Examinando meticulosamente jornais e revistas em hemerotecas físicas e virtuais da Espanha, Grã Bretanha, Portugal e França, além de documentos depositados em arquivos públicos da região basca, o historiador Sánchez Gómez pode reconstituir boa parte da vida de Eleicegui. O livro Altzo: un vasco mítico (aunque muy real) en la Europa del siglo XIX nos mostra um personagem envolvente, bem distinto dos clichês do imaginário popular, que o descrevem como um ser triste, manipulável e ansioso para voltar à sua remota cidade natal.

Miguel Joaquín Eleicegui morreu no dia 20 de novembro de 1861, aos 43 anos, vítima de uma tuberculose pulmonar. Durante muito tempo se acreditou que seus ossos tinham sido roubados da sepultura e estavam nas mãos de um misterioso colecionador. Outro mito contestado pela obra de Sánchez Gómez. No dia 14 de agosto de 2020, uma escavação realizada pela Sociedad de Ciencias Aranzadi, encontrou seus restos mortais no cemitério municipal de Altzo. O historiador estava certo. Como também deve estar certo ao sintetizar a vida de Eleicegui: “O gigante montou seu negócio, ganhou muito dinheiro e se divertiu o quanto podia. É claro que se exibiu porque quis”.

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