História,  Jornalismo,  Resenha

Quando o jornalismo enfrenta o poder, ele muda o curso da história

Por Mauro César Silveira

Há momentos cruciais, definitivos, nas relações entre o jornalismo e o poder político. Ou o veículo de informação se curva às pressões governamentais para silenciá-lo ou resiste e reage, de forma destemida, cumprindo o único papel que justifica e legitima sua presença na sociedade – a defesa inalienável do interesse público. Nessas horas, não há meio termo: é sucumbir, em rendição humilhante, ou manter a altivez, a dignidade, arcando com as consequências da decisão de desafiar a autocracia. Esse dilema foi vivido, com aguda intensidade, pelo jornal The Washington Post em junho de 1971 e é o eixo da trama do filme The Post: A Guerra Secreta, de 2017. O quadro que se vislumbrava era bastante complicado: em dificuldades financeiras, a publicação via o concorrente The New York Times revelar parte de um relatório ultrassecreto do governo norte-americano, intitulado Report of the Office of the Secretary of Defense Vietnam Task, depois conhecido como Pentagon Papers (Papéis do Pentágono), que detalhava as ações militares dos Estados Unidos no Vietnã desde a década de 1940. O vazamento de pouco mais da metade da documentação de 14 mil páginas mostrou que sucessivos governos do país mentiram à opinião pública, escondendo a sempre negada expansão militar na região, com movimentadas operações de guerra em países como Laos e Camboja, o envolvimento em frios assassinatos e o envio regular de tropas mesmo sabendo que as chances de vencer o conflito eram reduzidas.

A tensão aumentou quando o Washington Post conseguiu ter acesso à papelada, repassada pela mesma fonte, o analista militar Daniel Ellsberg (interpretado por Matthew Rhys), que integrava os quadros da RAND Corporation, entidade que desenvolvia pesquisas para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. É que a Suprema Corte norte-americana já havia impedido o New York Times de continuar divulgando os documentos. Também havia pressão de novos acionistas chamados para socorrer a empresa, que poderiam recuar diante de demandas judiciais à vista. E o horizonte era flagrantemente ameaçador: enfrentar a censura e publicar as informações significava assumir, junto com a publicação rival, o risco de uma condenação que levaria à prisão diretores e jornalistas. O que fazer? Publicar ou não?

As reflexões éticas sobre o jornalismo pontuam o ótimo filme de Steven Spielberg em diálogos instigantes. No ápice de um acalorado debate entre o advogado e presidente do Conselho de Administração do Washington Post, Fritz Beebe (interpretado por Tracy Letts), e o frenético editor-chefe Ben Bradlee, em grande composição do personagem por Tom Hanks, temos uma bela amostra de como o diretor explora bem esse recurso. “Se o governo ganhar e formos condenados, o Post que conhecemos deixará de existir”, alertou Fritz. “Se vivemos num mundo onde o governo diz o que podemos publicar, então, o Post que conhecemos já deixou de existir”, retrucou Ben.

As discussões deontológicas avançam até a decisão final sobre a publicação ou não do explosivo material do governo, que estava nas mãos da diretora geral do jornal, Katharine Graham, magistralmente interpretada por Meryl Streep. Uma posição mais do que delicada. Ela herdara o Washington Post, após o suicídio do marido, e era amiga íntima do então secretário de defesa, Robert McNamara, exatamente quem havia encomendado, em 1967, a exaustiva análise histórica da atuação norte-americana na chamada Guerra do Vietnã e que estava com a imagem abalada desde as primeiras revelações do New York Times. Pressionada pelo universo masculino da empresa, formado por assessores jurídicos e administrativos e desaconselhada por McNamara, Kay, como era chamada, não se intimidou e acabou ficando ao lado do editor-chefe Ben Bradlee e da equipe de repórteres investigativos do Washington Post, contribuindo para estabelecer um marco na trajetória do jornalismo e da democracia nos Estados Unidos.

Com uma fotografia primorosa assinada por Janusz Kaminski, The Post – A Guerra Secreta oferece uma bela aula de história e de ética do jornalismo.

Essa decisão histórica foi destacada pelos jornalistas Bill Kovach e Tom Rosenstiel numa obra fulcral, Os elementos do jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público exigir, lançada no Brasil em 2003. Resultado de 21 fóruns reunindo mais de 3 mil pessoas e 300 jornalistas para debater como a imprensa livre pode sobreviver nestas primeiras décadas do século XXI, a obra enfatiza que a busca da verdade, ainda que seja a verdade possível, é o compromisso fundamental da profissão. Eles recordam que quando McNamara voltou de Saigon, em 1963, declarou em entrevistas que tudo ia bem no Vietnã, mas oito anos depois foi desmentido cabalmente pelo New York Times e pelo Washington Post. Ao ser desmascarado, o ex-secretário de defesa, deixou uma dura lição aos jornalistas, segundo Kovach e Rosenstiel: Todos os dias usamos as palavras – verdade e mentira, exato e falso – e achamos que elas realmente significam alguma coisa. McNamara mentiu nas duas coletivas de imprensa. Os Pentagon Papers revelaram o que na verdade ele pensava e informou a Johnson (Lyndon). A história disso tudo tem vários níveis de verdade e falsidade. A imprensa informou de forma correta o que McNamara disse nas coletivas, mas não chegou ao fundo da verdade do que ele sabia”.

Meryl Streep em atuação magnífica: emoção à flor da pele da personagem Kay no momento decisivo Imagem: Divulgação

A dimensão do gesto de Kay, a diretora do Washington Post, sobressaiu numa cena entre o editor-chefe Ben Bradlee e sua esposa Tony (a atriz Sarah Paulson), em momento emblemático do filme. O personagem interpretado por Tom Hanks se vangloria da coragem de publicar os documentos ultrassecretos, mas ouve uma profunda observação da companheira: “Você é muito corajoso. Mas a Kay está em uma posição onde nunca imaginou que estaria. Uma posição que muita gente acha que ela não deveria ocupar. E quando repetem infinitas vezes que você não é suficientemente boa, que sua opinião não importa tanto. Quando ignoram você. Quando, para eles, é como se você não existisse. Quando sua realidade foi essa por muito tempo, é difícil não se deixar pensar que é verdade. Então, tomar essa decisão… Arriscar sua fortuna e a empresa que é a vida dela… Eu acho que é muita coragem”.

Com uma fotografia primorosa assinada por Janusz Kaminski, The Post – A Guerra Secreta oferece uma bela aula de história e de ética do jornalismo. Embora se reporte aos tempos do protagonismo das publicações impressas, com suas barulhentas máquinas de escrever, a obra de Spielberg dá uma boa ideia de como funciona a complexa indústria da informação, com muitos fatores em jogo, dos econômicos e políticos aos profissionais. E que tem validade, em vários aspectos, quando observamos grandes corporações jornalísticas numa época predominantemente digital. Além das excelentes interpretações, The Post explora bem o plano plongée – de câmara alta, acima do nível dos olhos, voltada para baixo, principalmente com a personagem de Meryl Streep. Como pequenas ressalvas, que não comprometem a alta qualidade do trabalho, ficou a sensação de que poderiam ter entrado, durante a narrativa, mais informações sobre o contexto histórico do Vietnã e, no final, talvez nos créditos, a informação do destino de cada um dos principais personagens retratados.

Se entre os maiores atributos na condução da trama estão os diálogos, outro acerto, nas últimas passagens do filme, é a lembrança de Kay de como seu antecessor, o ex-marido Phil Graham, definia as notícias: “Dizia que era o primeiro rascunho da história”, relembrou, orgulhosa, diante de robustos equipamentos de linotipia. Pouco tempo depois, o jornal que ela dirigia protagonizaria a cobertura do caso Watergate, o escândalo político que culminaria na renúncia do presidente Richard Nixon três anos depois. Um assalto aparentemente comum à sede do Partido Democrata é a derradeira cena de The Post. Uma conexão indispensável. Aplausos ao diretor!

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