Jornalismo,  Resenha

A internet quebrou a democracia?

Documentário mostra como a chamada mineração de dados influenciou eleições no Reino Unido e nos Estados Unidos

Por Natália Huf

As cinco empresas mais valiosas do mundo são de tecnologia. Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon, o “GAFAM” ou “Big Five”, fazem parte do setor que possui mais marcas entre as 100 mais valiosas do mundo, de acordo com a revista Forbes. Nos últimos anos, não tem sido fácil superar as tech companies, afinal, “dados são os recursos mais valorizados da Terra”, como pontua Brittany Kaiser, ex-funcionária da Cambridge Analytica e uma das principais entrevistadas no documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack, 2019).

Lançado no ano passado pela Netflix, o filme dirigido e produzido por Jehane Noujaim e Karim Amer examina o escândalo envolvendo o Facebook e a empresa Cambridge Analytica (CA), que combinava mineração e análise de dados para o desenvolvimento de campanhas eleitorais. Entre os entrevistados estão os ex-funcionários da CA, Brittany Kaiser e Christopher Wylie, que delataram as ações antiéticas da empresa nas campanhas Leave.EU, que levou o Reino Unido ao Brexit, e na campanha eleitoral de Donald Trump em 2016. Além deles, Carole Cadwalladr, jornalista do The Guardian/The Observer que expôs a ação e a influência que a CA exerceu nos dois pleitos, relata a apuração do caso.

Para quem não lembra, um breve resumo do que foi o escândalo de dados Facebook-Cambridge Analytica: em 2018, o Channel 4 News, canal de notícias britânico, publicou vídeos gravados com câmeras escondidas do então presidente da CA, Alexander Nix, falando sobre como a empresa de análise de dados era responsável pela eleição de Donald Trump nos EUA. A campanha de Trump contou com a mineração de dados de 87 milhões de usuários do Facebook, que vinham sendo armazenados desde 2014. Com informações pessoalmente identificáveis de milhões de eleitores estadunidenses, a CA influenciou as eleições de 2016, bem como a votação pela saída do Reino Unido da União Europeia. As coletas de dados ocorriam sem que os usuários soubessem, por meio de “testes de personalidade”, bastante comuns no Facebook há alguns anos. 

Ao fazer os testes estando logados em seus perfis, os usuários permitiam que a empresa desenvolvedora — Cambridge Analytica — tivesse acesso aos seus dados, bem como aos de suas listas de amigos e até mesmo mensagens privadas. Após a divulgação dos vídeos pelo Channel 4 News, o presidente e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, pediu desculpas pelo que chamou de “erro” e  “quebra de confiança”, e a CA encerrou suas atividades nos EUA e no Reino Unido. O escândalo ficou conhecido pelo mundo em março de 2018 e, dois meses depois, passou a valer na União Europeia o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), um dos regulamentos que inspirou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira, que entrou em vigor em 14 de agosto deste ano. Essa lei representa um avanço na segurança e privacidade dos dados pessoais dos usuários da internet, e dispõe que, para que os dados sejam coletados e analisados, o titular sobre eles deve consentir autorização e conhecer os termos de uso.

Já nas primeiras cenas, que se passam em uma aula do professor David Carroll, o documentário nos situa: estamos vivendo uma era em que nossas ações e comportamento são monitorados e antecipados por algoritmos.

Por meio de depoimentos e do acompanhamento do processo judicial envolvendo a CA, o filme aborda diversos lados do escândalo a partir da participação dos entrevistados. Já nas primeiras cenas, que se passam em uma aula do professor David Carroll, o documentário nos situa: estamos vivendo uma era em que nossas ações e comportamento são monitorados e antecipados por algoritmos. Esse caráter preditivo das redes sociais é abordada em outro documentário resenhado no Jornalismo & História, O dilema das redes, lançado também pela Netflix em setembro deste ano.

Em posse dos dados de 87 milhões de usuários do Facebook, campanhas eleitorais que trabalharam em parceria com a CA desenvolveram campanhas “data-driven”, guiadas por dados. Dessa forma, sabiam muito bem como impactar cada um dos usuários da rede para convencê-los a votar no candidato que estavam promovendo. A crítica literária do The New York Times Michiko Kakutani, no livro A morte da verdade: Notas sobre a mentira na era Trump (editora Intrínseca, 2018), resgata as palavras do escritor David Foster Wallace sobre a proliferação dos veículos de comunicação: “um caleidoscópio de opções informativas”.

Foster Wallace se referiu dessa forma à pluralidade de impressos, sites, programas de TV e rádio em 2005, mais de uma década antes da eleição de Trump, mas previu “espantosamente o cenário cultural pós-Trump, em que a verdade cada vez mais parece estar nos olhos de quem vê, os fatos são intercambiáveis e socialmente construídos e, com frequência, nos sentimos transportados para um mundo invertido, onde as premissas e posições em vigor há décadas foram substituídas de repente pelo seu contrário”, escreve Kakutani. A ação da Cambridge Analytica, se não abriu, ao menos ampliou o terreno para as fake news que infestam as redes sociais. Nas eleições de 2016 nos EUA, a plataforma utilizada foi o Facebook; no pleito brasileiro de 2018, o WhatsApp e os canais no Telegram foram os principais canais de transmissão de desinformação e mentiras. 

Os diretores Jehane Noujaim e Karim Amer tiveram seu filme indicado à categoria Melhor Documentário no prêmio BAFTA de 2020. Foto: nonfictionfilm.com/Matthew Carey

O pesquisador e jornalista Frederico Oliveira, doutorando no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) afirmou, em entrevista ao Brasil de Fato, que as fake news são “uma nova forma de desinformação, específica da cultura digital”. Há alguns anos, a propaganda eleitoral acontecia pelos meios tradicionais — jornais, televisão, panfletagem —, mas, hoje, a internet e as redes sociais são o principal palco para que candidatos promovam a si mesmo e, principalmente, ataquem seus oponentes. É um espaço livre que permite a interação com a população, porém, a falta de controle sobre os gastos de campanha nas plataformas online, a manipulação algorítmica e a coleta de dados dos usuários tornam as plataformas uma ameaça às democracias.

Na palestra “O papel do Facebook no Brexit e a ameaça à democracia”, proferida na conferência TED (acrônimo para Technology, Entertainment, Design) em abril de 2019, a jornalista Carole Cadwalladr — que expôs o caso Facebook-Cambridge Analytics no The Observer/The Guardian no ano anterior — relata uma matéria que fez após a votação pelo Brexit na cidade de Ebbw Vale, que registrou uma das maiores porcentagens de apoio à saída do Reino Unido da União Europeia. Com 62% dos votos a favor, a principal motivação dos eleitores era que “a UE não havia feito nada por eles”, além de “coisas terríveis” que viram no Facebook, especialmente sobre imigração. Ao tentar identificar as postagens que assustaram eleitores de Ebbw Vale, Cadwalladr não encontrou nada: não é possível encontrar registros dos anúncios e conteúdos patrocinados vistos pelos usuários em seus feeds hiper personalizados. Além disso, não é possível saber quanto dinheiro foi investido em anúncios online; por isso, leis que regulam o valor máximo que pode ser gasto em campanhas eleitorais, como no Reino Unido e também no Brasil, não são mais barreiras para candidatos e suas campanhas focadas na web.

Página no Facebook contrária à candidata Hillary Clinton, adversária de Trump nas eleições de 2016

No documentário, Christopher Wylie, ex-funcionário da CA, descreve a empresa como uma “full time propaganda machine” e cita o ex-estrategista-chefe de Trump, Steve Bannon, que diz que “é preciso destruir a sociedade completamente, para então construir do zero um mundo que reflita seus ideais”. E foi isso que as campanhas que tiveram participação da CA fizeram: atingiram os perfis de pessoas que consideraram mais suscetíveis, que poderiam ser mais facilmente persuadidos. Tanto no Brexit quanto na eleição de Trump em 2016, os indecisos foram os principais alvos dos anúncios de conteúdo político.

Carole Cadwalladr, em artigo publicado no The Observer/The Guardian, diz que, frente ao cenário enfrentado em 2016, não acredita que seja possível ter eleições livres e justas novamente. Para ela, a democracia “quebrou”, e os responsáveis por isso são os gigantes do Vale do Silício, a quem ela diz na palestra: “Vocês começaram a conectar pessoas e estão se recusando a reconhecer que essa mesma tecnologia está agora nos afastando”.

Se a internet realmente quebrou a democracia, não sei dizer. De fato, estamos enfrentando um momento de transformações, no qual as regras que funcionavam há alguns anos já não se aplicam mais. Desde 2008, com a campanha eleitoral de Barack Obama nos EUA, a internet e as redes sociais se tornaram atores importantes na política, e o papel que exercem vem crescendo a cada eleição, em países de todos os continentes. Enquanto sociedade, ainda estamos aprendendo a lidar com tudo o que as tecnologias nos oferecem, para o bem e para o mal — e o cenário político é parte disso. Regulamentações como a GDPR europeia e a LGPD brasileira são avanços que podem nos ajudar a fiscalizar e monitorar melhor o ambiente online e dar um passo à frente no que diz respeito à influência da tecnologia em nossas vidas. A internet e as redes sociais são uma realidade e, com certeza, fazem parte do dia a dia de grande parte da população mundial. Não é possível exterminá-la ou proibi-la, mas podemos encontrar maneiras de utilizá-las a nosso favor, de forma transparente e justa. 

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