Diálogos,  Jornalismo

A fragmentação da identidade pós-moderna

Inconsciente e redes sociais explicam a descentralização do “eu”

Por Bárbara Dal Fabbro

Em tempos de frenesi generalizado com a estreia do reality show com o formato de maior abrangência no globo e um nome bastante sugestivo, que remete ao homônimo personagem do livro de George Orwell, 1984, publicado originalmente em 1949, é possível se perceber na grande imprensa, em todos os seus gêneros e veículos, a predileção pela utilização do termo “identidade” para fazer referência àqueles que irão participar da atração televisionada. Programa esse que traz à memória outro interessante filme estrelado pelo versátil e talentoso Jim Carrey, O Show de Truman (1998), disponível na plataforma de streaming Netflix, e que desnuda desde o nascimento a vida desse personagem e seus traços identitários.

Ilustrações e capa da edição especial de 1984 da Companhia das Letras, lançada em dezembro de 2019 Imagens: Divulgação

Tanto o distópico livro, e o instigante filme, quanto o aguardado reality têm em comum a observação e a possível análise da identidade de seus participantes e personagens por aquele que se encontra do outro lado, ou do livro ou da televisão. E para falar de identidade, no singular, no século de maior fragmentação da mesma, devido às variadas personas que se pode assumir nas redes sociais, é preciso se compreender que assim como os demais aspectos “evoluíram” no tempo até a chamada pós-modernidade (final do século XX, após a queda do Muro de Berlim em 1989), o mesmo se deu com a compreensão sobre a identidade.

A descoberta do inconsciente – uma das subdivisões da mente – pelo criador da psicanálise Sigmund Freud (1856 – 1939) é tomada por Stuart Hall (1932 – 2014) como um dos pilares para a formação da identidade pós-moderna, descentrada e fragmentada. O autor cita exemplos de como podemos, na prática, reconhecer ações inconscientes, porém não o faz de modo a explicar o porquê de tomar esta instância psíquica como referência e não outra. Elucidar essa escolha é o caminho para entender a identidade pós-moderna não como uma transição da identidade iluminista ou sociológica, mas sim uma ruptura com os conceitos dantes vigentes de uma unidade do sujeito.

Essa fragmentação do sujeito – que é um mecanismo mental – se intensifica na conjuntura atual, devido aos diversos estímulos externos determinados pela globalização, que as rupturas e os deslocamentos fazem com que se estabeleça uma ‘crise de identidade’.

Com a leitura do texto de Stuart Hall, A identidade cultural da pós-modernidade, pode-se depreender que o indivíduo é um conceito montado, moldado pela sociedade, e que depende do contexto em que está inserido. Não é inato como acreditavam os iluministas (HALL, 2005). A fragmentação, o deslocamento, e a desagregação fazem parte de um discurso que pretendeu descentrar o sujeito cartesiano (moderno) tendo o contexto como um dos referenciais para a formação da identidade do indivíduo.

Como o autor esclarece bem: “A identidade plenamente unificada, completa segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente”.

O inconsciente, conceito freudiano, surge como um dos cinco grandes avanços do século XX, descritos por Hall, que possibilitaram uma nova concepção de identidade, a pós-moderna. Essa fragmentação do sujeito – que é um mecanismo mental – se intensifica na conjuntura atual, devido aos diversos estímulos externos determinados pela globalização, que as rupturas e os deslocamentos fazem com que se estabeleça uma ‘crise de identidade’. A crise do indivíduo pós-moderno reflete as mudanças que deslocaram as estruturas e processos centrais das sociedades pós-modernas, “abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável ao mundo social”.

O indivíduo passa a representar diferentes papeis segundo o contexto em que se insere. Hall nos explica que, desta forma, “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”. A sociedade, portanto, mostra-se como uma das reguladoras da formação da identidade dos indivíduos (macro universo), e será no inconsciente que os desejos, sentimentos e pensamentos desaprovados pela moral ou costumes dela irão se armazenar e, consequentemente, manifestar-se.

Devido ao recalcamento e à censura impostos pela sociedade, faz-se com que tais desejos sejam apenas permitidos se manifestados de forma onírica ou ‘indireta’.

Para melhor compreender essa fragmentação, é preciso reconhecer que o conceito de inconsciente de Freud irá mudar a visão em torno da constituição do sujeito, antes uno, centralizado, e agora subdividido. Assim, o pai da psicanálise propõe uma tríplice partição da mente (consciente, inconsciente e pré-consciente). Nela, o inconsciente aparece como um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria (GARCIA-ROZA, 1988).  Uma instância em que se encontram nossos desejos reprimidos, como expressam Laplanche e Pontalis (1998): “O inconsciente freudiano é, em primeiro lugar, indissoluvelmente uma noção tópica e dinâmica, que brotou da experiência do tratamento. Este mostrou que o psiquismo não é redutível ao consciente e que certos ‘conteúdos’ só se tornam acessíveis à consciência depois de superadas certas resistências”.

Freud deixa claro que o sujeito inconsciente é separado daquele consciente (eu), e que é nas lacunas das manifestações conscientes que temos que procurar o caminho do inconsciente; através dos sonhos, dos lapsos e dos atos falhos. “Os sonhos não são apenas a via privilegiada de acesso ao inconsciente, eles são também o ponto de articulação entre o normal e o patológico” (GARCIA-ROZA, 1988, p. 63). Devido ao recalcamento e à censura impostos pela sociedade, faz-se com que tais desejos sejam apenas permitidos se manifestados de forma onírica ou ‘indireta’.

As imposições e restrições da sociedade e da cultura afetam as pessoas em qualquer estágio de suas vidas, porém ficam evidentes na imagem da criança que aprende com grande dificuldade que o “eu” é inteiro e unificado. A noção de um sujeito único não é natural, é formada na relação com os outros, especialmente nas relações psíquicas inconscientes, entre a criança e as figuras paterna e materna (reais), e entre a criança e as poderosas fantasias que ela tem de seus pais. Os sentimentos contraditórios e não-resolvidos que acompanham essa difícil entrada nas representações simbólicas, que são aspectos-chave da “formação inconsciente do sujeito” e que deixam o sujeito dividido, se mantém dinamicamente por toda a vida. Assim, apesar de estar sempre dividido, o sujeito vivencia sua própria identidade como se ela estivesse reunida e “resolvida”.

A mediação entre a subjetividade e o real é feita pela função simbólica, é através dela que o indivíduo constitui a sua relação com o objeto (mundo externo), sua percepção, seu discurso. É o recalcamento (mecanismo de defesa da mente) que produz o inconsciente, e isso ocorre por exigência do simbólico, da representação que se faz das coisas, que substitui ou compensa uma realidade ausente, determinada socioculturalmente. É próprio do símbolo ter uma multiplicidade de significados e entrar em várias dimensões do social.

É possível se levantar outras questões que relacionam ainda mais a exposição constante das “identidades” em meios de comunicação e redes sociais com uma fragmentação ainda mais profunda, que remete, inclusive, às possibilidades infinitas de representação de personas em meios virtuais.

Segundo Lévi-Strauss (1967, apud GARCIA-ROZA, 1988), a cultura é um conjunto de sistemas simbólicos (caráter diferencial do humano); estes, contudo, não são apenas constituídos a partir do momento em que traduzimos um dado externo em símbolos, mas, ao contrário, é o pensamento simbólico que constitui o fato cultural ou social. O acesso ao simbólico (língua, cultura e diferenciação sexual) é, portanto, a condição necessária para a constituição do inconsciente, clivagem da subjetividade.

A identidade pós-moderna, deste modo, pode ser entendida como fragmentada a medida em que é atravessada por diferentes divisões e novos antagonismos sociais, ocorrendo um descentramento do “eu”. É nessa ruptura com o unificado que encontramos contempladas as diversas instâncias do sujeito, o dinamismo entre as possíveis identidades se torna evidente quando o contexto é colocado como umas das referências a serem tomadas para que se compreenda a diversidade de atitudes, à primeira vista contraditórias, que um indivíduo tem ao encontrar-se em determinadas situações.

A “adaptação da identidade” se faz necessária no mundo pós-moderno devido à falta de bases sólidas e à velocidade com que as mudanças ocorrem, sem dar ao sujeito tempo para digeri-las (antropofagia) para incorporá-las permanentemente. Mudanças essas que adquiriram uma velocidade e um alcance muito mais amplos devido às redes sociais e sua constante presença no cotidiano das pessoas, chegando ao ponto de, muitas vezes, determinar e “dominar” sua percepção sobre si próprio.

Conclui-se, deste modo, que a escolha feita por Stuart Hall do inconsciente como uma das referências da fragmentação da identidade cultural da pós-modernidade se deve à teoria de Freud de que nossas identidades são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos inconscientes que funcionam com uma lógica muito diferente daquela determinada pela “razão” (conceito iluminista). É, portanto, no inconsciente que se estabelecem as dinâmicas de identidade do sujeito, que irão se manifestar apenas através das lacunas do consciente em determinadas situações e contextos em que são aceitas pela sociedade.

E, frente a esta conclusão, é possível se levantar outras questões que relacionam ainda mais a exposição constante das “identidades” em meios de comunicação e redes sociais com uma fragmentação ainda mais profunda, que remete, inclusive, às possibilidades infinitas de representação de personas em meios virtuais, contradizendo e se contrapondo, muitas vezes, à identidade real “assumida”.

Referências

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1998

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, Edição Especial, 2019.

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