História,  Jornalismo

Qual é a graça?

Caricaturas e charges foram usadas na imprensa desde o início do século XX para a disseminação do racismo na sociedade brasileira

Por Natália Huf

Em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel sancionou a Lei Áurea, abolindo a escravidão e concedendo liberdade aos homens e mulheres escravizados no Brasil. Hoje, 133 anos depois, essa data nos lembra que, por mais que a lei tenha encerrado — ao menos na teoria — o regime escravocrata que vigorou por mais de três séculos no país, a ideologia racista permanece em alta na sociedade brasileira.

Charge publicada na revista D. Quixote, em agosto de 1917, com estas legendas: “Eu tambem entrarei na luta contra a Allemanha. Assim poderei passear de braço dado com aquelle fino cavalheiro Tio Sam” (À esquerda); “O boneco, agradecido á gentileza, offerece ao Humor-deboche o cacho da preciosa Muza Paradiziaca” (À direita)  Fonte: BENEDICTO, 2019, p. 190

A lei foi sancionada, os escravizados foram “libertos”, mas… e depois? Hoje, na historiografia nacional, o autor Nobu Chinen, em seu livro “O negro nos quadrinhos do Brasil” (2019), constata que há o preconceito por omissão: ao serem tratadas de forma coletiva e anônima, as pessoas negras foram escondidas sob uma “penumbra histórica”, ficando assim apagada e esquecida sua importância e participação na sociedade. Após a promulgação da lei, já no século XX, na belle époque do Rio de Janeiro, circulava uma imprensa irreverente: segundo a pesquisadora e doutora em História Maria Margarete dos Santos Benedicto, os jornais e as revistas ilustradas expressavam suas críticas à sociedade e ao governo por meio do humor, dos textos satíricos, charges e caricaturas.

Em sua tese de doutorado, Maria Margarete Benedicto analisou a representação humorística das pessoas negras e o branqueamento na sociedade carioca. Para isso, a pesquisadora reuniu textos satíricos, charges e caricaturas publicados em revistas da época, destinadas à “classe letrada”, a elite brasileira, que  reforçavam o racismo por meio da representação da população negra. A tese foi defendida no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo (USP), em fevereiro de 2019, e pode ser acessada de forma gratuita na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Já no século XX, anos após a sanção da Lei Áurea, a elite brasileira estava bastante preocupada com o que chamava “o problema negro”.

Por meio da análise, Maria Margarete Benedicto tem como objetivo responder a duas questões: a primeira, se o humor pode contribuir para a manutenção do racismo; a segunda, se devemos rir de tudo, inclusive das piadas racistas. Para a primeira pergunta, a resposta, ela conclui, é sim, o humor contribui para que o pensamento racista se perpetue. Já a segunda tem uma resposta negativa, visto que o humor racial é uma ferramenta de normalização dessa ideologia.

No humor gráfico, charges e quadrinhos brasileiros, como aponta Chinen, a presença negra era escassa durante o período do Segundo Império (1840-1889). A análise do autor se detém a esse período, quando a imprensa ilustrada no Brasil ganhou força. Contudo, mesmo com as poucas aparições, as pessoas negras fizeram parte das produções dos principais nomes do humor gráfico da época: Angelo Agostini e Henrique Fleiuss, dois defensores da abolição da escravidão. Os jornais e revistas ilustrados do período eram um espaço de debate e combate ao governo imperial, e foram muito utilizados para as campanhas pelo fim do regime escravocrata.

Charge publicada na revista D. Quixote, em agosto de 1921, com o título “A philantropia humana” e a legenda “Positivamente Deus é brasileiro!” Fonte: BENEDICTO, 2019, p. 224

Já no século XX, anos após a sanção da Lei Áurea, a elite brasileira estava bastante preocupada com o que chamava “o problema negro”. De acordo com Benedicto, a “nova sociedade” que se formava no período da belle époque carioca queria ser reconhecida como branca e se distanciar das pessoas negras, com um processo de branqueamento social. Havia divergências sobre a mestiçagem: havia quem visse como uma “degeneração”, bem como quem acreditasse que seria uma forma de “diluição”. Nos jornais e revistas, o que se via eram charges e caricaturas que reforçavam o sentimento negativo destinado às pessoas negras e seus descendentes: representações da mulher negra no trabalho doméstico; o homem negro associado à sujeira, desonestidade, preguiça, ignorância; a fala escrita de forma a ser ridicularizada, reforçando o estereótipo da falta de estudo.

Além disso, os traços dos desenhos eram muitas vezes exagerados e deformados. A origem da iconografia satírica e pejorativa do negro, segundo Chinen, remonta aos menestréis e artistas itinerantes: quadros do século XIX mostram os homens negros como “bufões”, músicos, dançarinos, cantores — sempre provendo diversão e entretenimento ao branco. Essas representações contribuíram para a massificação dos estereótipos associados às pessoas negras e para a percepção das brancas, e serviram de inspiração para artistas brasileiros, que davam aos personagens negros “a cabeça como uma bola ou elipse preta, olhos esbugalhados e lábios exageradamente grossos”, como assinala Chinen.

“Para rir das pessoas negras e seus descendentes, era preciso inferiorizá-las, inferiorizar suas características”. Maria Margarete Benedicto, autora da Tese de Doutorado Quaquaraquaquá quem riu? Os negros que não foram… 

Na tese, Maria Margarete Benedicto procura estabelecer as relações dessas representações com o humor e o racismo, e identificou um consenso entre os humoristas do período que analisou: “Para rir das pessoas negras e seus descendentes, era preciso inferiorizá-las, inferiorizar suas características”, escreve. Em entrevista ao G1, a pesquisadora ressaltou: “O que aprendemos nos livros é uma história eurocêntrica, com questões políticas e sociais da Europa, de modo que eu podia apenas desconfiar que a elite intelectual daquela época era racista, o que ficou comprovado na quantidade de material que encontrei na minha pesquisa, em fontes dispersas. Nessa documentação ficou nítido o empenho pelo branqueamento da nação. Era o racismo ali, literalmente, o racismo”.

Charge publicada na revista D. Quixote em maio de 1917, referindo-se aos vinte anos da Lei Áurea: “Ande di pressa, moço! São duas hora e já divia está no instituto di belleza!” Fonte: BENEDICTO, 2019, p. 102

Nobu Chinen, nas últimas páginas de seu livro, relembra a falácia de que o Brasil é uma “democracia racial” e observa que, nos quadrinhos brasileiros, são significativos os casos em que os personagens negros estão associados à discriminação ou preconceito. Contudo, essa realidade vem mudando: em 2018, circulou pela internet o almanaque Como desenhar personagens negros sem cair em estereótipos, e, ao menos no Brasil, muitas HQs mais recentes têm como objetivo valorizar a cultura negra e reafirmar o papel histórico dos afro-brasileiros na formação sociopolítica do país.

Se nas primeiras décadas do século passado a representação das pessoas negras era feita de modo a inferiorizá-las, é uma vitória que análises como a de Chinen também indiquem possibilidades de mudança. Mas ainda há um longo caminho a percorrer, e pesquisas como a de Benedicto são imensamente relevantes para que possamos olhar para o passado da sociedade e da imprensa brasileira com olhos críticos, para evitar que se cometam os mesmos erros no presente e no futuro.

Referências

BENEDICTO, Maria Margarete dos Santos. Quaquaraquaquá quem riu? Os negros que não foram… 2019. 262 f. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.

CHINEN, Nobu. O negro nos quadrinhos do Brasil. São Paulo: Peirópolis, 2019.

 

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