Jornalismo,  Reportagem

Jornalismo independente, coletivo e de oposição

Revista digital Badaró explora a linguagem dos quadrinhos em suas reportagens de tom crítico e analítico

Por Natália Huf

Com uma homenagem a Líbero Badaró no nome, a Revista Badaró já mostra no título a que veio: combativa e politizada, a revista fundada em 2019 é uma das pioneiras no jornalismo em quadrinhos no Brasil. Inspirados pela maior referência do jornalismo em quadrinhos, o repórter maltês Joe Sacco, e também por veículos como o estadunidense The Nib, os criadores da Badaró e os membros da equipe produzem reportagens em HQ sobre política, educação, arte, história e atualidades.

A experiência de unir jornalismo à linguagem dos quadrinhos não é nova, mas não deixa de ser inovadora: em um país com uma produção jornalística tão tradicional como o Brasil, ideias como essa são disruptivas, especialmente quando a produção é feita de forma contínua. Hoje, além dos quadrinhos, a Badaró produz também conteúdo em podcasts e em audiovisual.

Criada por Norberto Liberator, Fábio Faria, Leopoldo Neto e Mylena Fraiha, a revista conta hoje com uma equipe de quinze voluntários, entre jornalistas, ilustradores e colunistas. A proposta inicial da Badaró já era de fazer jornalismo em quadrinhos. Dois dos membros fundadores, Norberto Liberator e o colega Fábio Faria, conheceram essa linguagem ainda durante a graduação. “O Fábio era ilustrador, muito ligado à cena do graffiti em Campo Grande. Não lembro bem como foi que conhecemos o jornalismo em quadrinhos, mas lembro que uma das primeiras obras com a qual tivemos contato foi Palestina, de Joe Sacco. Aí mergulhamos de cabeça”, conta Norberto.

Reportagem histórica esportiva assinada pelo quadrinista  Norberto Liberator  aborda as origens da acirrada rivalidade entre Lazio e Roma, um dos clássicos mais tradicionais do futebol mundial

A produção dos quadrinhos é coletiva: o trabalho é dividido entre membros da equipe que ficam responsáveis pelas etapas de apuração e de ilustração, mas todos são convidados a participar da edição, trazendo sugestões e críticas para a matéria final. Segundo a ilustradora e quadrinista Marina Duarte, todas as funções são desenvolvidas coletivamente, tanto que a Badaró aboliu a função de editor: “Em outros veículos, o que se vê é uma hierarquia e pouca liberdade. Nós até temos editores para uma questão organizacional, mas, na prática, o trabalho é colaborativo”.

Entre os principais desafios de se trabalhar com a narrativa em quadrinhos, tanto Marina quanto Norberto destacam a dificuldade de lidar com o tempo. “A gente às vezes até pula algumas etapas que são típicas do quadrinho, como a produção do story board, para acelerar a produção. O processo de se fazer história em quadrinhos é demorado”, diz Norberto. Essa, inclusive, é uma das razões pelas quais a Badaró se denomina uma revista: “Chamamos assim tanto pelo tempo de produção, que não é o de hard news. Fazemos jornalismo de revista. As pautas não são tão quentes, tão factuais, mas são aprofundadas”, acrescenta.

Para Marina, o quadrinho também oferece à Badaró a oportunidade de explorar uma linguagem que ainda é pouco utilizada pelo jornalismo: “O quadrinho brasileiro por muito tempo esteve limitado, tentando entrar na caixinha das grandes editoras. A internet ajudou para que ocorresse uma explosão da HQ independente no Brasil”. Com a possibilidade de publicar por conta própria, muitos quadrinistas e ilustradores passaram a divulgar sua arte, histórias em quadrinhos e webcomics na internet, o que possibilitou alcançar um grupo maior de leitores.

“Fazer jornalismo independente é praticamente pagar para trabalhar”

Ao longo dos anos, os integrantes do coletivo passaram a se debruçar cada vez mais sobre a linguagem do quadrinho. “Esse é um processo lento, explorar a linguagem. A coletividade do nosso trabalho ajuda a encontrar potencialidades da HQ para o jornalismo. Nós queremos levar a emoção da arte e do jornalismo de forma séria, e vejo muita evolução ao longo dos anos”, avalia Marina.

FORA DO EIXO

“Fazer jornalismo independente é praticamente pagar para trabalhar”, diz a ilustradora. Muitos dos integrantes do coletivo responsável pela Badaró trabalham em outros empregos, como jornalistas na grande mídia do estado do Mato Grosso do Sul ou no jornalismo sindical, por exemplo, “mas todos com uma grande vontade de fazer a Badaró existir”, completa. Mesmo com uma equipe voluntária, a revista não deixa de ser um empreendimento: um coletivo de jornalismo e arte que não visa lucro, mas tenta manter sempre o crescimento em seu horizonte. 

Perspectiva histórica, atributo do melhor jornalismo, está presente nas reportagens da Revista Badaró

Para Norberto, a revista estar baseada em Campo Grande tem inúmeras vantagens jornalísticas, mas também dificulta o processo de encontrar anunciantes e parcerias: “Estamos muito próximos do laboratório do bolsonarismo, da violência contra povos indígenas, da destruição do Pantanal”, pontua. O caminho para fortalecer o projeto, segundo ele, foi “um planejamento muito pé no chão, movido pela paixão pelo que fazemos”. Hoje, para manter a produção, a Badaró está buscando e fechando contratos com negócios locais que compartilham dos ideais dos integrantes da revista, como movimentos sociais, o debate canábico e a reforma agrária. “Nosso objetivo não é nos associar a grandes corporações. O que compensa mais? Fazer jornalismo real, ou fazer jornalismo defendendo povos indígenas enquanto se é financiado por quem os extermina? Qualquer ajuda sempre tem um ‘cala a boca’ por trás”, diz Marina.

“Fazer jornalismo em quadrinhos também é uma forma de resistência.”

Outro desafio encontrado pelo coletivo é a dependência das plataformas. Marina conta que a comunicação da revista é baseada nas redes sociais, e isso significa adaptar o layout dos quadrinhos para os tamanhos e formatos que podem ser publicados: “Quando se pensa primeiro na plataforma, isso pega um pouco no quadrinho. O Instagram, por exemplo, é muito usado para publicar tiras, mas HQ é muito mais do que tirinhas”. Segundo a ilustradora, cada quadro, cada espaço em branco e cada elemento gráfico importa e tem um significado na leitura. “A rede social nos limita, e por isso estamos aprendendo a usar essa linguagem a nosso favor. Fazer jornalismo em quadrinhos também é uma forma de resistência.”

QUADRINHOS NO BRASIL

Hoje, na opinião de Norberto, o jornalismo em quadrinhos vive o momento da “geração acadêmica”: muitas das experiências com essa linguagem são frutos de produções de estudantes e trabalhos de conclusão de curso, os projetos experimentais. No entanto, Marina ressalta que o quadrinho ainda é um tipo de narrativa bastante contestado mesmo dentro do meio jornalístico, que nem sempre é compreendido.

De acordo com Marina, os leitores e jornalistas brasileiros têm uma “relação esquisita” com a linguagem dos quadrinhos. Isso acontece tanto pela relação imediata de quadrinhos com o público infanto-juvenil, quanto com histórias de super-heróis ou mangás japoneses. “O quadrinho é uma linguagem legítima, também é literatura. A aversão ao quadrinho é um reflexo da aversão ao que é tido como infantil, à novidade, e também de como se trata a literatura no nosso país.”

Apesar de estar muito ligado à leitura para crianças, o quadrinho não é, necessariamente, uma linguagem “fácil” ou “didática”. Como afirma Norberto, essa linguagem pode ser explorada para contar diferentes histórias, de diferentes profundidades: “O quadrinho aproxima o leitor do que está sendo dito, e fornece maneiras de contar o que não poderia ser retratado de outra forma”.

Por enquanto, só é possível ler as reportagens em quadrinhos em formato digital, no site da revista e pelas redes sociais. As matérias de diferentes editorias – política, gênero, ciência, entre outras – podem ser acessadas aqui.

QUEM FOI LÍBERO BADARÓ, HOMENAGEADO PELA REVISTA

Giovanni Battista Libero Badaró (em imagem do Memorial do Ministério Público do Paraná) foi um jornalista italiano radicado no Brasil, cujo assassinato em  20 de novembro de 1830 levou à abdicação de Dom Pedro I no ano seguinte. Líbero Badaró era diretor do jornal O Observador Constitucional, fundado em 1829, de linha editorial bastante liberal. O assassinato foi atribuído pela opinião pública da época ao imperador, que teve sua imagem e poder fragilizados.

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