Diálogos,  Jornalismo

Dorian Gray, o “it boy” das redes sociais

Vaidade e status quo escancarados para angariar seguidores

Por Bárbara Dal Fabbro

’Você é de fato uma má influência, Lorde Henry? Tão má quanto Basil diz?’
‘Não existe essa coisa de boa influência, senhor Gray. Toda influência é imoral – imoral do ponto de vista científico.’
‘Por quê?’
‘Por que influenciar alguém é dar-lhe sua própria alma [...]’

Usualmente lemos clássicos da literatura mundial e nos parece que seria possível imaginá-los em nosso tempo presente. A transposição de O retrato de Dorian Gray, de 1890, do escritor, poeta e dramaturgo britânico de origem irlandesa, Oscar Wilde, para a atualidade insere o personagem principal, o jovem bonito e vaidoso, Dorian Gray, no universo das redes sociais, da exposição constante e contínua de estilos de vida. No caso de Gray, o hedonismo e até a lascívia são características exacerbadas neste cenário virtual via fotografias e vídeos postados, curtidos e seguidos por milhares de pessoas ao redor do globo.

 A narrativa transmídia pressupõe a utilização de vários meios para se contar uma história. A proposta deste ensaio é resgatar esse clássico literário e transpô-lo para a realidade atual da sociedade de rede, convergente, plugada e conectada 24 horas por dia, sete dias por semana.

Ben Barnes como Dorian Gray em filme britânico de 2009 dirigido por Oliver Parker Imagem: Divulgação

A obra escolhida, O retrato de Dorian Gray, é um romance crítico que nos apresenta ao jovem Dorian Gray que, ao longo do livro, irá se transformar de um rapaz ingênuo em alguém superficial e egoísta. Isso se deve pelo fato de não envelhecer nunca, apesar de seu estilo de vida destrutivo e inconsequente. Seu segredo? Um retrato no qual ficavam marcadas todas as suas “aventuras”, rugas e degradação.

Oscar Wilde, hoje, não é conhecido por suas críticas ácidas à toa. Esse livro é um “tapa de luvas de pelica” na cara da sociedade do século XIX, que prezava muito mais o parecer que o ser (um tema recorrente ou não?).

Acompanhamos a corrupção da alma do rapaz até seu ponto crítico. Os demais personagens acabam se tornando todos secundários, mas não menos importantes. Lorde Henry e Basil são quase a definição da dualidade do homem. Enquanto Henry é o lado cínico, hipócrita e maldoso, nunca forçando, mas sugerindo maliciosamente ao nosso protagonista os prazeres da vida, Basil é aquele que sempre tenta trazer Dorian de volta a seu lado puro e gentil de rapaz do campo, aquele que trouxe para si tanto fascínio.

Vale ressaltar que Henry tem as melhores citações que já pude ler em um livro. Aqueles mais entendidos sempre ressaltam que Wilde sempre carregava seus personagens de suas próprias características e opiniões, sendo Henry um dos melhores exemplos nesse caso.

O clima fechado, a neblina, a ideia de uma sociedade que precisa mentir e esconder suas próprias naturezas, para ser mais “pura” e “civilizada”, enquanto continua por admirar um rapaz que nunca envelhece, e ainda nos brinda com um tipo de terror mais sutil e refinado.

Como é de conhecimento geral, Oscar Wilde trouxe à tona em seu romance características de homossexualidade ao texto, algo que foi inclusive usado contra o próprio em seu julgamento. Embora seja considerado bastante inofensivo para os dias atuais, as sutis passagens foram um choque para uma sociedade tão “correta”, pois homossexualidade era considerado um crime na época em que a obra foi publicada, forçando o autor a reescrevê-la, alterando alguns pontos e acrescendo capítulos que tornaram o livro mais romantizado.

O Retrato de Dorian Gray é um romance de ficção gótica carregado de uma crítica espinhosa não apenas a uma sociedade banhada pela hipocrisia, mas ao indivíduo enquanto pessoa. Como nos portaríamos se fôssemos eternos?Será que a beleza, a fortuna, a juventude são mesmo instrumentos que nos permitem fazer o que quisermos?

GATEWATCHER: FOCO NA CIRCULAÇÃO DAS INFORMAÇÕES

Para melhor compreender a conjuntura atual em relação aos meios de comunicação, propagação e interação com informações e notícias é preciso ater-se a alguns conceitos imprescindíveis para a cultura contemporânea. Cibercultura, convergência e gatewatcher definem aspectos e elementos componentes deste novo cenário mundial, globalizado, conectado, instantâneo e veloz.

Cibercultura é uma definição cunhada pelo filósofo francês Pierre Levy. Trata-se de uma forma de explicar a mensuração por computadores das expressões culturais contemporâneas. Há, para este pensador, a reflexão do que ele chama de “universalidade sem totalidade”, ou seja, “a cultura produzida na internet é universal porque há interconexão entre todos. Mas ela não tem totalidade porque cada ponto, cada nó da rede pode ter características próprias, pode trazer novas discussões para a rede.” (LEVY, 1999 apud MARINHO, 2014, p.08).

Por convergência, entendemos a cultura inserida nas novas mídias, como é consumida, produzida, e a interação do usuário da rede (internet) com ela. É um conceito popularizado por Henry Jenkins através de sua obra “Cultura da Convergência” (2008).

E por que o livro é importante? Ele é fundamental porque Jenkins é o primeiro a mostrar de forma consistente e sistematizada que o atual cenário cultural é caracterizado por mídia cooperativa e pela reapropriação de conteúdos. Ele mostra que a produção contemporânea não é concentrada, é difusa e integra agentes que historicamente poderiam ser considerados bem antagônicos, como mídia corporativa (grandes empresas), mídia alternativa e consumidor. Jenkins encara a convergência como uma transformação cultural. Prefere analisar as mudanças da internet pelo ponto de vista antropológico do que pelo ponto de vista tecnológico.

Axel Bruns (2005) defende que na internet, o gatekeeper – em alusão a quem definia o que era notícia na mídia tradicional – deve ser chamado de gatewatcher. Ele defende que o termo deve ser diferente porque o gatewatcher não está necessariamente preocupado com a produção do conteúdo. Ele está mesmo em circular a informação, em dar indicações de coisas legais que os outros podem acessar. O gatewatcher aponta as informações para as fontes originais, indicam para a origem.

 WHAT’S “IT”

A romancista britânica Elinor Glyn (1864 – 1943) foi quem primeiro usou o termo it como um eufemismo para sex appeal. Nas palavras dela, neste romance originalmente serializado na Revista Cosmopolitan

‘IT’ is that quality possessed by some which draws all others with its magnetic force. With ‘IT’ you win all men if you are a woman – all women if you are a man. ‘IT’ can be a quality of the mind as well as a physical attraction.

Traduzindo:

‘IT’ é aquela qualidade que alguns possuem e que faz com que todas as outras pessoas sejam atraídas por sua força magnética. Tendo o ‘IT’, você conquista todos os homens se você é uma mulher – todas as mulheres se você é um homem. ‘IT’ pode ser uma qualidade do espírito assim como uma atração física. (

Assim, tendo em vista as diversas redes sociais nas quais estamos inseridos, como Instagram, Facebook, Twitter e Snapchat, para citar algumas, é possível definir que Dorian Gray seria considerado, hoje, um “it boy”, um influenciador digital, pela exposição de seu modo de vida, beleza e não envelhecimento. Temas esses que são uma constante nas publicações que mais angariam seguidores nas redes sociais. A vaidade, a superficialidade e o status quo de Gray seriam tomadas como “modelo”, curtidas, repercutidas e invejadas.

Sinopse do livro: Dorian Gray é um belo e ingênuo rapaz retratado pelo artista Basil Hallward em uma pintura. Mais do que um mero modelo, Dorian Gray torna-se inspiração a Basil em diversas outras obras. Devido ao fato de todo seu íntimo estar exposto em sua obra prima, Basil não divulga a pintura e decide presentear Dorian Gray com o quadro. Com a convivência junto a Lorde Henry Wotton, um cínico e hedonista aristocrata muito amigo de Basil, Dorian Gray é seduzido ao mundo da beleza e dos prazeres imediatos e irresponsáveis, espírito que foi intensificado após, finalmente, conferir seu retrato pronto e apaixonar-se por si mesmo. A partir de então, o aprendiz Dorian Gray supera seu mestre e cada vez mais se entrega à superficialidade e ao egoísmo. O belo rapaz, ao contrário da natureza humana, misteriosamente preserva seus sinais físicos de juventude enquanto os demais envelhecem e sofrem com as marcas da idade.

Referências Bibliográficas

BRUNS, Axel.Gatewatching: Collaborative online news production. New York: Peter Lang, 2005.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MARINHO, Felipe Harmata. Apostila da disciplina de Expressões Culturais Contemporâneas. Pós-graduação em Gestão Cultural, Senac EAD: São Paulo, 2014.

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Landmark: São Paulo, 2009.

Referências Webgráficas

GLYN, Elinor. It. Romance originalmente serializado na revista Cosmopolitan. Informações sobre o filme baseado na obra podem ser acessadas aqui.

 

 

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