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O machismo com ares de modernidade da revista Fon-Fon

Obra da historiadora Vívian Marcello Ferreira Caetano descortina a proposta editorial da publicação ícone da belle époque brasileira

Por Mauro César Silveira

Os ventos da modernidade na chamada Primeira República (1889-1930) sopraram em direções determinadas, sob condições igualmente estabelecidas: o Brasil tentava ostentar a imagem de nação civilizada, varrendo para debaixo do tapete o passado colonial e escravista, sem abrir mão de manter a abismal desigualdade social do país. Assim, o projeto de profundas reformas urbanas na então capital federal, iniciado em 1903 pelo prefeito Pereira Passos, com forte apoio do presidente Rodrigues Alves, precisou contar com o jornalismo como estratégico aliado para disseminar essa mudança cosmética. O bordão oficial “O Rio civiliza-se”, em alusão às obras inspiradas em modelo parisiense executado na segunda metade do século XIX, propagou-se nas páginas da imprensa brasileira. Mais do que isso: os jornais e revistas difundiam padrões comportamentais para a elite carioca diante das grandes transformações em andamento na cidade. Uma das publicações, a revista ilustrada Fon-Fon, cumpria um papel fundamental: moldar a postura feminina da classe dominante. É o que mostra, com preciosos e reveladores detalhes, o livro Modernidade, gênero e condição feminina nas páginas da revista Fon-Fon (1910-1920), da historiadora Vívian Marcello Ferreira Caetano, lançado no ano passado pela Autografia, do Rio de Janeiro.

Capa da ediçao número 2 da Fon-Fon, que circulou em 20 de abril de 1907

Ícone da belle époque brasileira e símbolo da modernização da imprensa no país, a Fon-Fon era considerada uma das revistas mais influentes daquele período e também se inseria no universo do ainda incipiente avanço técnico nacional. Nesse sentido, o recorte temporal da autora foi preciso: de 1910 a 1920. A primeira edição foi às ruas em 13 de abril de 1907 e a publicação teve uma longa vida, circulando até 1958, com praticamente todos os exemplares disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A logomarca no alto das capas, nos dois primeiros anos da revista, realçava a expressão onomatopeica do título, exibindo um carro com motorista, como sinal de um progresso irreversível que envolvia a capital federal. A Fon-Fon apresentava-se como um “semanário alegre, político, crítico e esfuziante”, com uma distinção que a própria revista fazia questão de enfatizar: político e crítico para os homens e alegre e esfuziante para as mulheres.

Embora anunciando que se dirigia aos dois gêneros, o alvo prioritário da publicação era as mulheres, como revela Vívian Marcello em sua obra. Isso ficou mais do que evidente na pesquisa para a dissertação de mestrado em História defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que dá origem ao livro. Ela constatou a preocupação dos editores – todos homens – em determinar com­portamentos exigidos das mulheres pelo discurso de modernidade e a sua representação em termos de dominação de gênero e exclu­são social. “As leitoras que não seguiam as fotos e artigos de moda feminina dita ‘moderna’ eram consideradas feminis­tas e constantemente criticadas pela Fon-Fon, sendo consideradas como uma forma de ameaça à ordem patriarcal e conservadora da época, que de várias formas interferiam na possível liberdade/autonomia política, econômica ou social da mulher”, afirma a historiadora logo na introdução. Havia a nítida intenção de enquadrar a mulher nesse projeto de modernização burguesa do Brasil, como ela pontua pouco depois: “É possí­vel notar que havia um investimento da classe dominante na busca por caminhos que pudessem levar à civilização e ao progresso e a mulher era parte direta deste processo. Esta mulher, embora moderna, conti­nuava retratada como mãe e dona de casa, em oposição aos avanços do feminismo, frequentemente criticado pela Fon-Fon.”

“A Fon-Fon era uma revista feminina escrita por homens, logo a mo­dernidade carioca tinha gênero e era masculino.”

O trio masculino que criou a revista era formado pelos intelectuais sim­bolistas Lima Campos, Gonzaga Duque e Mário Pederneiras. Como precursores do movimento modernista, eles fizeram uso da literatura, da charge e da fotografia para mostrar, nas páginas da revista, cenas do cotidiano carioca, com destaque para as obras que estavam alterando a fisionomia da área urbana do Rio de Janeiro para transformá-la numa Paris tropical. Tudo produzido em alta e inovadora qualidade gráfica para a época. “Suas capas e páginas espelhavam a autoimagem que a elite e as clas­ses médias em formação faziam do progresso: fotografias de modernos edifícios, a amplitude da Avenida Central, flagrantes de transeuntes nas movimentadas ruas de comércio no centro da cidade, figurações do urba­nismo, tudo isso impresso em papel couché de alta gramatura, veiculando os textos entre guirlandas art nouveaux”, descreve a historiadora Maria de Lourdes Eleutério, citada pela autora na página 38 da obra.

Vívian Marcello desvela uma importante faceta da celebrada revista Fon-Fon Foto: Arquivo Pessoal

Toda essa roupagem moderna não conseguia dissimular sua essência conservadora. Vívian Marcello sintetiza o viés ideológico da linha editoral da publicação: “A Fon-Fon era uma revista feminina escrita por homens, logo a mo­dernidade carioca tinha gênero e era masculino. Defendemos que, apesar de transmitir uma autoimagem moderna e propagar o ideal de modernidade, as publicações da revista Fon-Fon são produtoras de uma visão tradicional, cristã e patriarcal”. Uma modernidade que se resignava à presença crescente da mulher no trabalho fora de casa, mas desde que sob os mais estritos limites. O artigo intitulado “Um desastre do feminismo”, publicado pela revista na edição de 10 de setembro de 1910,  noticiava, com certo regozijo, que uma pesquisa realizada entre trabalhadoras e trabalhadores ferroviários de uma empresa estadunidense concluíra “que o trabalho dos homens é 30% mais vantajoso que o dos seus colegas de saia”, atribuindo a diferença à uma suposta maior produtividade masculina. Ao longo daquela década, a Fon-Fon bateria na tecla das atividades recomendáveis para a mulher “moderna”, como sublinha a historiadora: “Para a revista e a sociedade carioca, existiam profissões adequadas para as mulheres como enfermeiras, balconistas, telefonistas, datilógrafas, secretárias e uma com maior destaque, as pro­fessoras”.

Um dos atributos do livro de Vívian Marcello  é a transcrição de valiosos textos da revista que permitem a reconstrução do ideário da elite brasileira nas primeiras décadas do século XX. Isso é perceptível nas indicações de conduta para a mulher, que se constituíam num dos pontos fortes da proposta editorial. O poema intitulado “O ABC da mulher”, publicado na edição de 15 de março de 1913, é exemplar como amostra dos padrões de comportamento desejados pelos editores da Fon-Fon:

“Amar com todas as forças do seu coração.
Beijar, o homem que for seu marido.
Cercá-lo de todos os carinhos.
Dar-lhe toda a felicidade possível.
Erigir um altar ao seu amado.
Fazer-lhe todas as vontades.
Gastar o menos que puder.
Honrar o seu nome.
Inspirar-lhe a maior soma de afeto.
Jogar pouco no bicho.
Lamentar-se o menos que puder.
Mostrar-se sempre bem arranjadinha.
Não resmungar. Ouvir seus conselhos. Poupar-lhe desgostos.
Querer-lhe com constância.
Rir dos outros homens quando a namorarem.
Ser séria e bem comportada.
Ter presente que ele é teu protetor.
Usar de toda moderação.
Vê-lo sempre com agrado.
Zombar dos flirts e dos conquistadores”..

Como o alvo da revista era a mulher burguesa, as diferenças de classe transpareciam nas páginas da revista. E um fator de distinção social era a moda, como bem observa Vívian Marcello, ao comentar o artigo “O Rio elegante”, publicado em 13 de janeiro de 1910, que delineava a mãe considerada ideal: “A mulher casada, além das tarefas domésticas, deveria se destacar nos eventos sociais com sua beleza e principalmente pela riqueza observada na roupa. Afinal, sua aparência deveria ser um reflexo do sucesso financeiro do marido”.

O  uso de calça comprida feminina, que fazia sucesso na França, preocupava tanto os editores que ocupou a capa de quatro edições seguidas.

A desigualdade de gênero também se apresentava nas críticas de costumes às mulheres menos favorecidas. Na edição de 27 de junho de 1914, em comentário sob o título indagador “Urucubaca?”, o autor não identificado criticava o uso, cada vez maior, de gírias de origem afro na sociedade carioca: “Urucubaca? Impressionou-me, é sério, aquela estranha palavra, que me parecia cheirar mal, à cantiga. E aquela boca feminina, de lindos dentes claros e iguais, repetiu mais umas duas ou três vezes esse nome feio: uru­cubaca. Que seria aquilo, Santo Deus? Que queria significar aquele termo d’África, desencavado agora pelo feitio pernóstico da nossa gíria para figu­rar, por momentos, nosso terrível calão de rua? Não me admirei, porque em questões que entendam com a nossa gíria, eu já não me admiro de mais nada, nem mesmo de urucubaca significando azar, caiporismo. Espe­remos que há de vir outro pior”.

O diálogo presente no texto intitulado “As nossas criadas”, publicado na edição de 1º de junho de 1912, também destilava preconceito contra as mulheres mais pobres. É mais uma referência à relação entre patroa e empregada:

“Mme. A… entra na cozinha e encontra a criada em doce colóquio com um bombeiro. 
– O que está fazendo aqui este sujeito? Pergunta ela, furio­sa. 
– Desculpa, patroa, mas nós também semos gente, ele frita comigo! 
A criada queria dizer flirta”..
Charge de 25 de maio de 1912: meias no varal delimitando a diferença de classes

Na charge que apareceu na Fon-Fon de 25 de maio de 1912, mesmo uma peça menos chamativa da indumentária reforçava a divisão de classes. A imagem de um varal com meias penduradas delimitava a diferença: enquanto as meias floridas e com laço da patroa possuíam maior e exclusivo espaço, as discretas vestimentas das empregadas disputavam o outro fio estendido. A legenda tornava tudo ainda mais compartimentado: “No fundo do quintal: 1. As meias da cozinheira – 2. As meias da copeira – 3. As meias da patroa”. Para a autora do livro, “estas evidências nos ajudam a refletir tanto como eram tratadas essas mulheres pobres que trabalhavam em casas de famílias ricas como também a maneira como a rica tinha que agir diante das mesmas para mostrar sua posição privilegiada. A mulher da classe dominante tinha que saber administrar seus empregados e afazeres, assim como o di­nheiro que era dado a ela para as compras de mercado e afins”.

Ainda que estivessem em melhor condição social, as mulheres mais abastadas eram tolhidas em seus movimentos, como ressalta Vívian Marcello. As críticas contra as jovens que queriam “se modernizar demais” eram frequentes na revista. Um exemplo disso era a grande preocupação da Fon-Fon com o uso da jupe-cullote, um modelo de calça comprida feminina que fazia sucesso na França. O tema era tão valorizado pelos editores que foi abordado na capa de quatro edições seguidas. “Havia uma campanha para que essa moda não fosse adotada no Brasil, por ser uma vestimenta considerada masculina e sua utilização era vista como uma forma de protesto e constantemente associada ao movimento feminista”, aponta a historiadora.

Jupe-cullote era ridicularizada em charges

Na seção “Pequenas notas” da publicação que circulou em 18 de março de 1911, a apreensão com o uso dessa nova peça de roupa era explícita: “A única cousa que me preocupa, nesta questão da jupe-cullote, é se ela não é um ardil do infatigável feminismo! O que se esconderá sob essa pretendida evolução da moda?” E as charges também eram usadas para ridicularizar a calça feminina, como a que ocupou a capa da edição seguinte, de 25 de março de 1911. A legenda da imagem destacava a reação de um homem bigodudo à novidade usada por uma mulher diante dele: “O GAÚCHO – Hum! Temos concorrência!”

Muitos outros temas mereciam a atenção da revista, conforme nos relata Vívian Marcello, como o movimento sufragista e o debate sobre o divórcio, ambos duramente criticados e ironizados, sejam através de textos ou charges. Mas a autora dispensa um dos três capítulos, o último, para tratar das poucas vozes femininas da Fon-Fon. Uma rara exceção a ocupar coluna fixa e ser anunciada com um certo alarde foi a francesa Laurence Elie Bloch, que foi apresentada na edição de 22 de outubro de 1910 como “uma talentosa escritora parisiense”. Ela publicou, sempre no idioma francês, ainda muito usado pela elite carioca, 60 crônicas, até a edição de 13 de janeiro de 1912, tratando de temas como artes, etiqueta, eventos sociais e vestuário feminino. “Nas crônicas desta coluna, podemos perceber o incentivo à constru­ção de um ideal de feminino moderno civilizado à moda francesa”, assinala Vívian Marcello.

A autoimagem brasileira de país moderno ainda mantém, mais de um século depois, uma matriz ideológica tradicional, cristã e patriarcal que, em pleno ano de 2020, patrocina cenas deploráveis como a violência intimidatória do advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho contra a influencer e promotora de eventos Mariana Ferrer, vítima de estupro em Santa Catarina.

O espaço de Laurence Elie Bloch, intitulado Carnet Mondain d’une parisienne (Caderneta mundana de uma parisiense), não fugia aos mandamentos da linha editorial, como assevera a historiadora: “Essa nova coluna é direcio­nada principalmente ao público leitor feminino da revista, tanto pelos assuntos tratados quanto pelo estilo ‘leve e gracioso’, considerado pró­prio do ‘sexo frágil’”. Um excerto de texto da colunista em 10 de dezembro de 1910, traduzida pela autora, dá uma ideia do que a francesa pensava: “De toda a sociedade, a mulher da aristocracia é aquela que reencontra mais rápido seu equilíbrio. Se sua ajuda tinha sido necessária num mo­mento de tribulação, ela teria realizado seu dever de ‘grande dama’ que é grande porque sabe sempre agir com nobreza. Passada a angústia, ela segue seu dever: Agradar”.

Anúncio publicado pela Fon-Fon em 1912: mulher era o principal alvo da revista

Também passaria pela revista a desenhista Nair de Teffé, uma das primeiras mulheres caricaturistas brasileiras, que mais tarde se notabilizaria como pintora, musicista, atriz e escritora, com participação na Semana de Arte Moderna de 1922. Sob o pseudônimo de Rian, assinava retratos desenhados de mulheres da alta sociedade carioca numa seção denominada “Galeria das Elegâncias”.  Mais quatro nomes de mulheres apareceram em algumas edições como autoras de contos e poemas, mas Vívian Marcello não conseguiu, em sua apurada pesquisa, saber mais informações sobre essas pessoas e se realmente pertenciam ao sexo feminino.

Obra bem escrita, Modernidade, gênero e condição feminina nas páginas da revista Fon-Fon (1910-1920) representa uma relevante contribuição aos estudos da trajetória histórica do jornalismo e, também, à recuperação da memória sociocultural brasileira. Mas seu peso vai além disso. É leitura que ajuda a pensar sobre o aflitivo momento atual brasileiro. Os mesmos valores conservadores que perduram um século depois, combinando tradição com uma pretensa modernidade, continuam sendo disseminados em canais ditos jornalísticos. Nas conclusões do livro, a autora dá dois exemplos de notícias, de poucos anos atrás, que sedimentam ideias-imagens mais do que anacrônicas, divulgadas por blogs dos portais Globo.com e ClicRBS, respectivamente em 2015 e 2016. A primeira, intitulada “Mulheres já bebem tanto quanto os homens”, toma como base uma pesquisa realizada numa clínica médica no Rio de Janeiro; a segunda, “Metade dos homens considera que bloco de Carnaval não é lugar de mu­lher ‘direita’, aponta pesquisa”, citava levantamento realizado pela empresa Data Popular.

Depois de se referir a essas matérias, Vívian Marcello, com absoluta propriedade, reflete: “Não é coincidência? Estamos vivenciando hoje, no século XXI, os mesmos pensamentos e costumes do século passado. Sendo assim, quando vemos exemplos como os dos anos de 1913 e 1914 tão parecidos com os dos anos de 2015 e 2016, notamos o quanto o discurso conservador e tradicional em relação às mulheres se repete historicamente.” Nada mais cristalino. A autoimagem brasileira de país moderno ainda mantém, mais de um século depois, uma matriz ideológica tradicional, cristã e patriarcal. Um modelo que, em pleno ano de 2020, patrocina cenas deploráveis: em vídeo revelado pelo site The Intercept, no início deste mês, assistimos, estarrecidos, a ação intimidatória do advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho contra a influencer e promotora de eventos Mariana Ferrer, agredindo verbalmente e humilhando a vítima de estupro em favor de seu cliente, o empresário André de Camargo Aranha, no julgamento do caso. Tudo sob a complacência do juiz que comandava a sessão virtual, Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis. A violência perpetrada contra a jovem na audiência culminou com a absolvição do acusado, mesmo com todas as provas que compunham o processo. O livro Modernidade, gênero e condição feminina nas páginas da revista Fon-Fon (1910-1920) ajuda a entender a desfaçatez de tantos homens brasileiros, sobretudo os mais poderosos. Leitura mais do que necessária nos tempos que correm.

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