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A estrela de Clarice Lispector brilha na Espanha

No mês do centenário do seu nascimento, vida e obra da escritora têm grande repercussão no maior país ibérico

Por Mauro César Silveira

Tão desconcertante como a pandemia que assola o mundo, como compara a escritora e crítica cultural aragonesa Mercè Ibarz, a poderosa literatura de Clarice Lispector dá as cartas nos meios jornalísticos espanhóis. Neste mês de dezembro, em que a brasileira nascida na Ucrânia completaria 100 anos, sua vida e obra resplandecem em diferentes formatos, sejam impressos ou digitais.  Antes mesmo da efeméride, no dia 10, começaram a circular reportagens, ensaios, resenhas, comentários e notas, disseminados pelas diferentes regiões da península ibérica. E nada indica que o brilho da estrela vai arrefecer tão cedo: o mercado editorial espanhol lançou vários livros de Clarice Lispector ao longo de 2020 e prepara novas edições para os próximos anos.

“Uma estranheza eloquente e íntima percorre suas histórias, que os leitores reconhecem”, observa Mercè Ibarz no texto intitulado Clarice Lispector, esa escritora indomable, publicado pelo jornal El País em 16 de setembro passado. “Não é isso que estamos vivendo, inusitado e desconcertante?”, indaga, em tom reflexivo. Um excesso de realidade, sob a marca de uma aguda incerteza, tal qual a inquietante escrita da “autora indomável”, como ela define a brasileira, ao ler a primeira tradução catalã de uma seleção de seus contos, Restes de carnaval, lançado pela Editorial Comanegra, de Barcelona, três meses atrás. O título é uma alusão ao conto Restos de carnaval originalmente publicado no livro Felicidade clandestina, de 1971.

Em outubro, foi a vez de outra empresa barcelonesa, a Club Editor, publicar em catalão A Hora da Estrela (L’hora de l’estrella), de 1977. Para os próximos anos, essa editora planeja lançar mais cinco livros no idioma da Catalunha: Um Sopro de Vida (Un buf de vida), de 1977, Água Viva (Aigua viva), de 1973, A Paixão Segundo G.H. (La passió segons G.H.), de 1964, A cidade sitiada (La ciutat assetjada), de 1948, e seu romance de estreia, Perto do Coração Selvagem (Prop del cor salvatge), de 1943. Um interesse crescente devido à alta qualidade literária, mas também ao caráter atual da obra, como sublinha a crítica Mercè Ibarz: “Clarice Lispector sabe o que diz com uma peculiar precisão, a última coisa que ela está tentando fazer é domar sua singularidade. Talvez hoje a compreendamos melhor, ela que exibiu o ‘dom de não compreender’. Em suas frases e histórias, reconhecemos cada vez mais o que acontece conosco, especialmente agora”.

Outra escritora espanhola, Cristina Sánchez-Andrade, que traduziu a biografia intitulada Why This World: A Biography of Clarice Lispector, do estadunidense Benjamin Moser, de 2009 – reeditada agora na Espanha por Ediciones Siruela, de Madri, como Por qué este mundo: una biografía de Clarice Lispector – sustenta que a obra da brasileira continua inclassificável, à margem de gerações e correntes narrativas como o chamado boom latino-americano. Uma condição única, e por isso, absolutamente diferenciada.

Ao comentar esse relançamento da história de vida de Clarice Lispector no suplemento cultural Babelia, do El País, em 10 de dezembro, ela procurou dimensionar toda a grandiosidade do talento literário da autora: “Pessoalmente, estou inclinada a pensar que ela não poderia ser incluída em nenhum ‘clube’ (masculino ou não) ou fazer parte de qualquer geração simplesmente porque sua literatura era tão absolutamente pessoal, tão magistral e desconcertante, que teria enlouquecido a todo aquele que buscasse pontos em comum para enquadrá-la em uma geração. Menos mal assim!”

“Clarice Lispector conseguiu converter-se na mais universal das escritoras brasileiras ao nos ensinar que todos somos estrangeiros no mundo.” Nélida Piñón

E Cristina Sánchez-Andrade encontra na filósofa francesa Hélène Cixious quem melhor define o intenso e inquietante mundo interior da escritora brasileira: “Se Kafka fosse uma mulher; se Rilke fosse uma escritora brasileira judia nascida na Ucrânia; se Rimbaud tivesse sido mãe e tivesse atingido os 50 anos; se Heidegger fosse capaz de deixar de ser alemão… Nesse ambiente, escreve Lispector”. A intelectual espanhola termina seu ensaio sobre a biografia produzida por Benjamin Moser citando a própria retratada: “Sou tão misteriosa que não me entendo” – a conhecida declaração de Clarice. “Não em vão, a obra de Clarice Lispector ficou, e segue ficando, fora de qualquer tentativa de classificação”, arremata Sánchez-Andrade logo após a transcrição da frase.

O enigma existencial da autora brasileira, aliás, está presente na maioria dos textos publicados neste final de ano em publicações espanholas. El misterio de Clarice Lispector é o título do artigo publicado na revista S Moda, encartada em El País, de 21 de novembro, anunciando como Ediciones Siruela está celebrando em 2020 o centenário da autora de Água Viva. Além da reedição da biografia escrita por Benjamin Moser, a editora madrilenha relançou mais quatro títulos: Todos os Contos, Um Sopro de Vida, A Hora da Estrela e A Paixão Segundo G.H. A Siruela também mantém em seu catálogo mais 12 obras de Clarice.

Na Espanha, a condição de esfinge da brasileira continua sendo o tema central das edições das matérias. Um exemplo cabal disso é a diferença do título da mesma reportagem realizada pela correspondente no Brasil, Naiara Galarraga Gortázar, sobre a biblioteca da escritora, conservada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, que a jornalista define como “uma pequena janela para o método de criação da romancista”. Na versão brasileira online do El País, o texto postado em 5 de dezembro, foi intitulado Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional. Na edição papel e digital do El País espanhol, na mesma data, o título é outro: Clarice Lispector: una biblioteca de secretos. Outro que ressaltou o lado enigmático de Clarice foi o catalão Xavi Ayén, no La Vanguardia, em 10 de dezembro, usando como primeira frase do seu texto ensaístico a declaração auto definidora da autora: “Soy tan misteriosa que ni yo misma me entiendo”.

Entre os muitos meios jornalísticos do país ibérico que abriram espaço para registrar o centenário da escritora brasileira, a publicação online elDiario.es destacou-se por reproduzir, em sequência, três reportagens da Agência EFE, neste mês de dezembro: Clarice Lispector en los ojos de Nélida Piñón, no dia 9, Un siglo de Clarice, la mujer que revolucionó la literatura en Brasil, na edição seguinte, e Recife, la ciudad que edifica la carrera y personalidad de Clarice Lispector, três dias depois.

Na primeira matéria, a escritora e integrante da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñón, ressalta um dos maiores méritos de Clarice, sua amiga por mais de duas décadas e que a acompanhou até o leito de morte, em 9 de dezembro de 1977, na véspera do seu 57º aniversário: “Clarice Lispector conseguiu converter-se na mais universal das escritoras brasileiras ao nos ensinar que todos somos estrangeiros no mundo. Sua obra oferece uma reflexão sobre a angústia da humanidade, que lhe garante estar entre os autores e as autoras universais”. O jornalismo cultural espanhol continua batendo palmas.

MAIS CLARICE LISPECTOR

O Instituto Moreira Salles recebeu o Acervo Clarice Lispector em 2004. Além de biblioteca, há manuscritos, textos datilografados, correspondência, cadernos e quadros pintados pela escritora. Os materiais podem ser apreciados no site dedicado à vida e obra de Clarice, disponíveis integralmente para reprodução. Vale a visita. Acesse aqui.

Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib, obra de 672 páginas editada pela Edusp, é o resultado de um projeto antigo, que vem sendo desenvolvido pela autora ao longo de muitos anos, desde que começou a recolher material para sua tese de livre-docência, posteriormente publicado no livro Clarice, Uma Vida que se Conta, de 1995. Ela reuniu imagens de Clarice pesquisando em vários arquivos, conheceu os lugares onde a escritora residiu – Ucrânia, Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, Maceió, Recife e Rio de Janeiro -, consultando acervos em bibliotecas, hemerotecas e museus. Pesquisou também os documentos de época que possibilitaram a necessária contextualização. As fotos estão distribuídas em sequência cronológica e em função dos espaços habitados ou percorridos por Clarice, acompanhadas de dados concisos que compõem as legendas, complementados pelos comentários na última seção do volume. A obra pode ser adquirida aqui.

Como parte das comemorações do centenário da escritora no Brasil, foi lançado o livro Todas as cartas, pela Editora Rocco, do Rio de Janeiro, resultado de longa pesquisa realizada pela jornalista Larissa Vaz, sob orientação de biógrafos e da família. São quase 300 cartas, dos anos 1940 a 1970, que permitem visualizar boa parte da trajetória literária de Clarice Lispector. Na obra, destaca-se o conjunto de correspondências inéditas endereçadas a amigos escritores, como João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Natércia Freire e Mário de Andrade. No dia 25 de setembro, a TV Brasil exibiu uma reportagem sobre o livro. Assista aqui.

Veja também a crônica jornalística predileta de Clarice Lispector publicada aqui mesmo no Jornalismo & História.

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