História,  Jornalismo

Imprensa portuguesa, presença assídua na leitura juvenil de Machado de Assis

Por Cristiane Garcia Teixeira

Pesquisar o jovem Machado de Assis, tendo como principal fonte de investigação a imprensa do século XIX, é entender como se formou um dos maiores escritores brasileiros. Uma tarefa recheada de entusiasmos e, às vezes, surpresas. Os textos de Machado de Assis dessa época são, muitas vezes, relegados a um plano subalterno dentro do conjunto de sua produção. Mas podem ser esses textos, por exemplo, profícuos caminhos para compreender a história das letras luso-brasileiras e as relações entre as associações e comunidades literárias portuguesas e brasileiras. Machado de Assis, além de ler os clássicos, foi leitor também de impressos portugueses como A Semana: Jornal Literário, listado no catálogo do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro – um local bem frequentado por Machado de Assis. Segundo consta no II volume desse periódico, publicado em 1851, em Lisboa, seu fundador foi João de Lemos e o diretor Silva Tulio.

Página de apresentação do jornal português A Semana: Jornal Literário Imagem: Hemeroteca Digital/Biblioteca Nacional

As relações de Machado com a literatura e cultura portuguesa estão presentes em sua trajetória: filho de mãe açoriana, afilhado de mulher nascida em Braga, companheiro de Carolina, natural de Porto. Já durante a juventude estabeleceu contato e construiu uma rede de amizades com escritores portugueses, colaborando entre os anos de 1861/62 para o jornal luso-brasileiro O Futuro, de propriedade de Faustino Xavier de Novais, irmão de Carolina, portanto seu cunhado. Antes disso, em 1859, quando comandava a redação da revista O Espelho, convidou seus amigos portugueses Ernesto Cibrão (futuro diretor do Real Gabinete Português de Leitura) e Antônio Moutinho de Souza para colaborarem com textos para o empreendimento.

Foi n’O Espelho que Machado de Assis mencionou alguns tipos de parasitas e gralhas sociais. E em uma de suas crônicas, publicada na edição n.º 2, de 11 de setembro de  1859, descreveu o fanqueiro literário como um comerciante de literatura, que fazia obras de fancaria, sem autenticidade. Um indivíduo que vendia sua literatura de pouca qualidade, transformando-a em mercadoria. Esse tipo social foi, nas palavras do literato, um seguidor do poeta português José Daniel, que como um “adelo ambulante da inteligência, […] ia farto como um ovo, de feira em feira, trocar pela azinhavrada moeda o frutinho enfezado de suas lucubrações literárias”.  O fanqueiro era autor de obra grossa, por vezes mofada, criador de odes ou discursos parvos e retumbantes. Atrevido, satirizava os próprios fregueses, “como em uma obra em que embarcava, diz ele, os tolos de Lisboa para uma certa ilha; a ilha era, nem mais nem menos, a algibeira do poeta.”

Se não havia romancistas de paixão portugueses, outros tipos sociais ligados à literatura eram bastante numerosos em Portugal e é sobre eles que pode haver aproximações com os tipos sociais brasileiros descritos por Machado de Assis.

No entanto, não foi o jovem Machado o primeiro a usar a expressão fanqueiro literário. Um provável pseudônimo – Sidney – já o usava em 1851 no jornal literário português A Semana. Nesse jornal, em uma série de textos epistolares, Sidney, além de outras questões, refletiu sobre a falta de romancistas portugueses. A série é muito interessante! Descreve a falta de “romances de paixão” em Portugal. Romances cuja característica principal seria a ligação com a realidade experimentada. A beleza desse gênero literário, segundo Sidney, estava na simplicidade.  Publicados em três partes, nas edições de número 9, 11 e 12 de 1851, os textos – disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional – traziam os seguintes títulos: Romances: Cartas ao Diretor da Semana I; Romance Português II e Romance Português III.

Em contrapartida, se não havia romancistas de paixão portugueses, outros tipos sociais ligados à literatura eram bastante numerosos em Portugal e é sobre eles que pode haver aproximações com os tipos sociais brasileiros descritos por Machado de Assis. Para Sidney a língua portuguesa ainda não estava preparada para a arte do romance, faltavam os mestres em Portugal. Paris seria o melhor exemplo, a capital da inteligência, pois lá “ama[va]-se o pintor pelo quadro, o poeta pela poesia”. Já em Portugal, isso não acontecia, pois havia tipos que faziam do talento máquina.

Vejamos como Sidney os descreveu no texto intitulado O Romance Português publicado na edição número 1 de A Semana, em janeiro de 1851:

“Essas máquinas viventes, que se adoram tanto na beatífica e estática meditação do corte afunilado de umas calças, ou no arrepiado esquisito do cabelo, estão no caso de distinguir pela crítica o que pertence a inteligência e ao coração? O que há de esperar de Narcisos que se esgrimem com alfinetes de peito, e se destronam entre narcóticas fumaças de charutos? Estes senhores não tem tempo senão para consultar o espelho, passar revista às conquistas imaginarias, e dormir, acordados ou deitados (tudo é dormir!), sobre os louros do seu alfaiate e do seu cocheiro. Do mais os pretores não curam. […] Contudo confesso-lhe que as circunstâncias já foram muito piores. Hoje a mocidade vê mais e melhor do que antes. Parte dela, já gosta de entrar em concurso nas lides literárias. As classes médias emancipam-se; vão tomando equilíbrio nas posições ganhas, aonde a falta de costume as fazia tropeçar desorientadas. Os fanqueiros literários (grifo nosso) vão sendo conhecidos, marcados, e expulsos como ciganos”.

Primeiro volume de A Semana, do ano de 1850, impresso em Lisboa, compõe um conjunto de 415 páginas Imagem: Hemeroteca Digital/Biblioteca Nacional

A aproximação entre os textos de Machado escritos para O Espelho e os textos de Sidney em A Semana é possível, o que pode sugerir que o garoto Machado de Assis teve contato com o jornal português. A crítica àqueles que faziam do talento uma máquina, o fato de os dois autores vestirem bem esses vaidosos tipos sociais, a esperança na mocidade talentosa, as referências clássicas e, principalmente, a utilização da expressão fanqueiro literário permitem a aproximação. Ademais, o amigo de Machado, Mario de Alencar, reuniu e publicou muitas notas que o literato fazia quando frequentava o Real Gabinete Português de Leitura, instituição em que, desde a década de 1850, tem os jornais portugueses em seu acervo.

Como ele atesta: “Machado de Assis foi aluno assíduo dos escritores da língua portuguesa, mas ao tempo em que primeiro os estudou, faltando-lhe meios para comprá-los, lia-os de empréstimo, como assinante do Gabinete Português de Leitura. Anotava então em pequenas folhas avulsas o que ia achando interessante” (ALENCAR, 1910, p. 137). Muitas dessas anotações se perderam, aquelas que sobreviveram ao tempo foram doadas à Academia Brasileira de Letras.

Embora ainda não encontremos as anotações de Machado sobre o jornal português A Semana, podemos pensar sobre mais aproximações. Para Sidney, em 1851…

“A elegida da nossa mocidade […] Já vê que falo só dos que tem alma, e não das organizações esponjosas, que absorvem o suco das flores e os perfumes da existência, embrutecidas no mais completo materialismo. Para essas reduz-se tudo a uma conta de multiplicar; resume-se tudo na palavra ‘interesse’! Do resto não querem saber, nem podiam saber, embora quisessem. Estes rebocadores de fortunas, felizmente, não são do mundo da arte e do espírito, e por isso importa pouco a sua obcecação, uma vez que por estúpida arrogância, como o besoiro, não entrem nos jardins e nos açoutem as plantas”.

Em Machado de Assis, no artigo Aquarelas: Os fanqueiros literários, de 1859, podemos encontrar:

“Até aqui as massas tinham o talento como uma faculdade caprichosa, operando ao impulso da inspiração, santa sobretudo em todo o seu pudor moral. Mas cá espera o fanqueiro; nada! O talento é uma simples máquina em que não falta o menor parafuso, e que se move ao impulso de uma válvula onipotente. É de desesperar todas as ilusões! […] Aqui o fanqueiro não tem por ora lugar certo. Divaga como a abelha de flor em flor em busca de seu mel e quase sempre, mal ou bem, vai tirando suculento resultado”.

O que podemos concluir e que não é novidade, mas ainda pouco explorado, é que o jovem Machado de Assis – sempre múltiplo! – pode ser um exemplo para refletir sobre as trocas que faziam as comunidades literárias brasileiras e portuguesas na metade do século XIX.

Lembram do escritor lisboense José Daniel, citado por Machado de Assis como um exemplo perfeito de fanqueiro literário? Foi possível encontrá-lo também em A Semana, quando o autor L. A. Palmerim (possivelmente Luís Augusto Palmerim) faz uma referência ao poeta português no romance A Família do Senhor Capitão-mor, com o intuito de apresentar uma personagem:

Foto de Machado de Assis jovem, aos 25 anos, até então inédita, foi uma das preciosidades da exposição Machado Vive!, em alusão ao centenário de morte do autor de Dom Casmurro, na Academia Brasileira de Letras, no ano de 2008 Reprodução/Coleção Manoel Portinari Leão

“Um vulto quase mitológico, […] A casaca de briche sobe-lhe imprudentemente até a nuca, servindo-lhe de gola e de almofadinha ao mesmo tempo. Antigo frequentador de Nicola, é quase um Cicerone oficioso da pesada Lisboa do tempo de José Daniel. […] Não perdera porém de todo a mania de fazer linhas curtas, que ele crismava de versos com o maior sangue frio do mundo. Em sonetos considerava-se modelo e ninguém tinha a audácia de fazer anos em casa da senhora morgada, sem ser memorado com quatorze versos, ásperos de arrepiar os cabelos, e mancos de fazer dó a gente. Era o sabichão da terra. Desde o bilhete amoroso até a correspondência híbrida para os jornais políticos, tudo era obra daquele gênio em disponibilidade. Descrições de luminárias, macróbios celebres, plantação e cultivo da fava, necrologias e soneto de anos, tudo eram trabalhos seus”.

Assim como o fanqueiro literário de Machado, que tinha nos desposórios, natalícios e batizados pretextos de inspiração, a personagem do romance português de autoria de Palmerim enriquecera às custas de bolsas alheias, escrevendo sonetos de anos, necrologias, versos de “arrepiar os cabelos”. Talvez fossem seus “clientes” os “tolos de Lisboa” que o fanqueiro literário de Machado, dando exemplo de José Daniel, levava para “a ilha da algibeira do poeta”.

O que podemos concluir e que não é novidade, mas ainda pouco explorado, é que o jovem Machado de Assis – sempre múltiplo! – pode ser um exemplo para refletir sobre as trocas que faziam as comunidades literárias brasileiras e portuguesas na metade do século XIX, período de formação do campo literário brasileiro e –  como mostrou Sidney sobre a falta de preparo da “língua portuguesa” para o romance – de Portugal também.  Se ainda é possível encontrar fanqueiros literários em pleno século XXI, tanto no Brasil quanto além-mar, isso é, como escreveu o cronista, assunto para uma próxima crônica.

Referências

ALENCAR, Mário de. Notas de Leitura de Machado de Assis. In: Revista da Academia Brazileira de Letras, vol. 1, Rio de Janeiro, 1910.

ASSIS, Machado de. Aquarelas: Os fanqueiros literários. O Espelho, n.º 2, 11/09/1859.

MASSA, Jean – Michel. A Juventude de Machado de Assis (1839 – 1870). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A. 1971.

PALMERIM, L. A. A Família do Senhor Capitão-mor. A Semana: Jornal Literário, vol. II, n. 2. 01/1851. p. 24.

SANDMANN, Marcelo. Aquém-além-mar: presenças portuguesas em Machado de Assis. 2004. 490 f. Tese (Doutorado) – Curso de Programa de Pós-graduação em Teoria e História Literária, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004.

SIDNEY. O Romance Português. A Semana: Jornal Literário, n. 1, 01/1851. p.127.

SIDNEY. Cartas ao Diretor da Semana. A Semana: Jornal Literário, n. 01, 01/1851. p. 406.

SOBRE A AUTORA

Cristiane Garcia Teixeira: nova colaboradora do J&H Foto: Acervo pessoal

A pesquisadora Cristiane Garcia Teixeira,  doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina(UFSC), é a mais recente integrante da equipe do Jornalismo & História. Na pesquisa para sua dissertação de mestrado, defendida nesta mesma instituição, ela encontrou indícios de que Machado de Assis escreveu, anonimamente, com apenas 20 anos de idade, a biografia de D. Pedro II. O texto do escritor, publicado em 6 de novembro de 1859 na revista O Espelho, não estava assinado, mas figurava numa página que ele costumava ocupar na publicação. O achado também rendeu um artigo divulgado na revista ArtCultura, disponível para download no site do periódico, e gerou ampla repercussão na imprensa e no meio acadêmico do país. Cristiane Garcia Teixeira desenvolve pesquisas sobre história da imprensa e editorial, agremiações literárias e intelectuais brasileiros atuantes no século XIX, como Machado de Assis e Paula Brito. No ano passado, ela conversou sobre o desconhecido lado biógrafo de Machado de Assis com a jornalista Natália Huf, do J&H, em entrevista publicada em 9 de outubro de 2020. Como respeitada historiadora, ela chega para qualificar o projeto, como representante de uma das duas áreas que se constituem no foco central do J&H.

 

 

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