Diálogos,  História,  Resenha

As fabulosas aventuras de um confinamento em Turim

Livro Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre, foi escrito em 42 dias de clausura no final do século XVIII

Por Mauro César Silveira

Em tempos de privação da liberdade e vida cotidiana condenada a transcorrer em espaços reduzidos, para não dizer exíguos, nada mais inspirador que o livro Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre (1763-1852), lançado, de maneira oportuna, em setembro de 2020, pela Editora 34, de São Paulo. Se a área disponível é restrita e os movimentos bem limitados, a imaginação pode alçar voos infinitos. É o que ensina a obra desse escritor e militar oriundo da nobreza francesa, redigida em circunstâncias inesperadas em Turim, na Itália, no ano de 1790. Depois de se envolver numa confusão que gerou um duelo – prática proibida pelo cardeal Richelieu ainda na época do rei Luís XIII, no século anterior -, o então tenente de 27 anos foi sentenciado a 42 dias de cárcere, pena comutada à prisão domiciliar devido à sua condição aristocrática. Fez do limão uma limonada: escreveu um “guia” de viagem de 88 páginas leve, irônico, um tanto sarcástico, publicado originalmente quatro anos depois.

Xavier de Maistre:  estilo marcado pela leveza e ironia Imagem: Wikimedia Commons

Reeditado em vários países ao longo de mais de dois séculos, aclamado por público e crítica, Viagem ao redor do meu quarto pode ser visto como uma ode à subjetividade, à liberdade narrativa, como um legítimo representante do movimento romântico que pautou aquela década e as seguintes. No primeiro dos 42 capítulos do livro – um para cada dia da clausura -, essas características afloram com vigor: “Meu coração experimenta uma satisfação indescritível quando penso que estou oferecendo aos incontáveis ​​infelizes um remédio eficaz contra o tédio e uma forma de mitigar as doenças que os afligem. O prazer que se encontra em viajar no próprio quarto nos protege da inveja dos homens; é independente da fortuna. Existe, de fato, um ser infeliz o suficiente, indefeso o suficiente, para nem mesmo ter um canto onde ele possa se recolher e se esconder de todos? Aqui está tudo o que se precisa para a viagem. Estou convencido de que todo homem sensato vai adotar meu sistema, não importa qual seja seu caráter, e qualquer que seja seu temperamento; avarento ou generoso, rico ou pobre, jovem ou velho, nascido onde o calor arde ou perto dos polos, qualquer um pode viajar como eu. Em suma, na imensa família de homens que pululam pela face da terra, não há um único – não, nenhum (entre os que moram em seus quartos, entenda-se) – que, depois de ler este livro, ouse rechaçar essa nova forma de viajar que apresento ao mundo”.

Machado de Assis: influência do francês Maistre citada na abertura de Memórias póstumas de Brás Cubas Imagem: Wikimedia Commons

Não por acaso, outro livro do passado também renova sua perene qualidade literária no atual cenário pandêmico. Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, desponta na prestigiada lista do The New York Times como um dos 20 melhores livros lançados em 2020. “O romance mais moderno e surpreendentemente vanguardista que li neste ano foi publicado originalmente em 1881”, justificou sua escolha Parul Sehgal, um dos três respeitados críticos do jornal. Na abertura da sua obra-prima, o Bruxo do Cosme Velho – na pele ressecada de Brás Cubas -, depois de dedicar o livro “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, como saudosa lembrança estas memórias póstumas”, lembrou do autor de Viagem ao redor do meu quarto: “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.”

O cinismo – no melhor sentido da palavra, o literário – é uma conexão visível entre as obras dos dois escritores, separadas por quase um século, mais atuais do que nunca. Xavier de Maistre dirige-se a leitores e leitoras, assinalando que “caminharemos, pouco a pouco, rindo-nos, ao longo do caminho, dos viajantes que viram Roma e Paris.” Detalhe: esse período histórico é de grandes andanças, o século de grandes expedições, como as de James Cook e Louis Antoine de Bougainville. Mas o autor francês oferecia algo a mais: “Minha viagem, no entanto, conterá essas e outras coisas; pois vou passar pelo meu quarto com frequência (um cômodo que, preciso dizer, está a 54 graus de latitude, orientada de leste a oeste) na direção do comprimento e da largura, ou diagonalmente, sem seguir nenhuma regra ou método. Vou até ziguezaguear e percorrer todas as linhas possíveis na geometria, se a necessidade exigir. Não gosto de gente que é tão dona de seus passos e de suas ideias que fala: ‘Hoje vou fazer três visitas, vou escrever quatro cartas, vou terminar esse trabalho que comecei’.”

A verve de Xavier de Maistre ressurgiu na Espanha, com força, neste começo de 2021. Algumas semanas atrás, a Mármara Ediciones, de Madri, relançou o livro do francês, com o título no plural: Viajes alrededor de una habitación. Explica-se: além do relato da inusitada “expedição” de 1790, durante as seis semanas de confinamento, o volume inclui outra obra – que não teve a mesma repercussão da primeira -, produzida 30 anos depois, Expedición nocturna alrededor de mi habitación, totalizando 180 páginas. É uma pena que o relançamento brasileiro da Editora 34 não contemple a sequência de Xavier de Maistre, Expedição Noturna ao Redor do Meu Quarto. As reedições anteriores mais recentes no país, todas esgotadas, incluem os dois livros: Viagem à roda do meu quarto, da Estação Liberdade, de São Paulo, de 1989, Viagem ao redor do meu quarto, da Mercado Aberto, de Porto Alegre, de 1998, e Viagem em volta do meu quarto, da também paulistana Hedra, de 2009.

Mesmo assim, a nova edição nacional da grande obra do escritor francês, traduzida por Veresa Moraes, merece ser aplaudida. O engenhoso périplo de 42 dias sem sair de um lugar com menos de 100 metros quadrados propicia pitadas filosóficas, visitas a outras regiões do planeta, digressões sobre acontecimentos históricos ou sobre qualquer outro tema. Tudo com muita ironia fina, sem perder de vista o ambiente, como os quadros pendurados na parede, a mobília da peça e a relação com o criado Joannetti e a cachorrinha Rosine.  Uma geografia que não deixa ter sua graça: “Ao lado da minha poltrona, quando vamos para o norte, minha cama aparece. É colocada no final do meu quarto e forma a perspectiva mais agradável. Está muito agradavelmente situada, e os primeiros raios de sol brincam nas minhas cortinas”.

A escrita livre de Xavier de Maistre é um sopro de muito frescor numa atualidade tão dura. Que o digam Machado de Assis, Nietzsche e Susan Sontag, entre outros ilustres leitores de Viagem ao redor do meu quarto.

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