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Um pintor entre dois mundos

Da revista brasileira Vanitas à publicação belga Clarté, a circulação transatlântica do artista uruguaio Carlos Wahington Aliseris

Por Maria de Fátima Fontes Piazza

Aliseris: intensa atuação transnacional Foto: Sistema de Museos de Colonia/Uruguay

Da vaidade à claridade, duas revistas, uma belga e outra brasileira, uma de fait-divers e a outra voltada às artes visuais, arquitetura e com pitadas de museologia, revistas tão diferentes entre si, apresentam dois artigos que tem como objeto: o pintor, diplomata e mediador cultural uruguaio Carlos Washington Aliseris (1898-1974) e a sua obra para o público do Brasil e da Bélgica. No caso da revista belga, há uma mudança de perspectiva da história da arte, da periferia para o centro, ou seja, um ponto de inflexão no discurso eurocêntrico e colonialista.

A pesquisa partiu de dois indícios, um recorte da revista de fait-divers Vanitas, de São Paulo, com o artigo sob o título “San Pablo-Aliseris”, na edição de setembro-outubro de 1934, volume IV, número 44, ocupando quatro páginas, com quatro reproduções fotográficas de obras de Aliseris e de um retrato do pintor; e a edição número 1 de Clarté: Art et Art Décoratif, Architecture, de Bruxelas, de janeiro de 1939, em que o pintor uruguaio é analisado em artigo de Julien Flament, sob o título “Aliseris ou la leçon d’amour Sud-Américaine”, com sete reproduções fotográficas de obras do pintor. O recorte e a revista pertencem à coleção Ignacio Labaure, em Montevidéo, Uruguay.

A análise partiu da afirmativa de Chartier, o que ficou do passado é um vestígio da cultura material ou um registro tipográfico que permite vislumbrar “a mão do autor e a mente do editor”, a partir daí é possível perscrutar para além dos sumários das revistas, as ilustrações e seus ilustradores, as redes de sociabilidades intelectuais ou as re (d) vistas, as políticas de amizade, correntes artísticas e movimentos de intelectuais, entre outras questões.

A rede de sociabilidade intelectual e políticas de amizade da jornalista Nair Mesquita compreendiam a poeta chilena Gabriela Mistral e o pintor Aliseris.

Os dois artigos, acima citados, estão em consonância com a trajetória artística de Carlos Washington Aliseris nos dois países. No Brasil, esteve na primavera de 1934, onde realizou três exposições individuais: Exposição C. W. Aliseris, de 21 de setembro a 5 de outubro de 1934, no Palace Hotel, no Rio de Janeiro, sob os auspícios da Associação dos Artistas Brasileiros; e Exposição do pintor uruguaio Aliseris, uma em outubro e outra novembro de 1934, sob os auspícios da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM), na Rua Barão de Itapetininga, n. 5, em São Paulo, sendo as duas últimas sob o mecenato da jornalista Nair Mesquita, vice-presidenta da SPAM e diretora-proprietária da Vanitas São Paulo. Na Bélgica, onde viveu em 1938 e 1939, realizou várias exposições entre individuais e coletivas, como: Exposition Aliseris – Paysages Exotiques de L’Amérique du Sud: Uruguay, Argentine, Brésil et Paraguay, de 15 a 26 de outubro de 1938, no Palais des Beaux-Arts, em Bruxelas, sob o patrocínio de Alfredo de Castro (Ministro do Uruguai em Bruxelas); Exposition d’oeuvres exécutées en Uruguay, Argentine, Brésil et Paraguay, de 18 de fevereiro a 2 de março de 1939, no Cercle Royal Artistique, em Anvers; Exposition Orientalisme Exotisme (coletiva), de 11 a 20 de fevereiro de 1939, na Galerie de Toison D’Or, Porto de Namur; Exposition Internationale de L’Eau: Artistes Vivants (coletiva), em Liège, 1939. Das obras que integraram estas exposições, algumas ilustram os artigos das revistas que são objeto de estudo.

A primeira revista a ser apresentada é Vanitas, que circulou de 1930 a 1938,  publicada em São Paulo, cuja diretora-proprietária foi a jornalista Nair Mesquita, uma publicação mensal, com redação localizada na Rua Libero Badaró, número 41 (Prédio Sampaio Moreira), tinha sistema de assinaturas e venda avulsa à cargo do Sr. Edmundo Josetti, gerente de Publicações Internacionais, na Avenida Rio Branco, número 117, com sucursais no Rio de Janeiro na Rua dos Ourives, número 43, no 2º andar, sob a direção do escritor Luiz Annibal Falcão e na Praça Floriano, número 19, 4º andar, sob a direção de Luiz Mendes, tendo como correspondente e representante em Paris, o jornalista Brício de Abreu, na Rue Mansart, número 9.

A jornalista Nair Mesquita (1900-?), natural de Limeira, no Estado de São Paulo, onde criou o periódico O Estuba, foi a figura central da Vanitas. Ao que parece, a pauta da revista era feita por ela, como pode ser constatado em carta para Portinari pedindo fotografias de obras do pintor para ilustrar o número de Natal de dezembro de 1934. Sua rede de sociabilidade intelectual e suas políticas de amizade compreendiam a poeta chilena Gabriela Mistral e Aliseris. A fatura da revista incluía nomes de destaque no campo intelectual como Menotti Del Picchia, Orígenes Lessa, Rubem Braga, Elsie Lessa, Paulo de Verbenna (pseudônimo de Antônio Marcelino de Carvalho), Brício de Abreu, entre outros, que no século XXI são desconhecidos do grande público, assim como, a jornalista Nair Mesquita que foi atuante na vida política paulista, desde a defesa da Revolução Constitucionalista de 1932 até a Associação Cívica Feminina que apoiou a “Chapa Única por São Paulo Unido”, nas eleições de maio de 1933, que elegeu Carlota Pereira de Queiroz como deputada para a Câmara Federal. Além de ser a idealizadora de um Curso Prático de Jornalismo, cuja inauguração, na sua sede, na rua Buenos Aires, n. 85, 6º andar, no Rio de Janeiro, em abril de 1940, que significou uma inovação e foi precursora do ensino do jornalismo no Brasil. A primeira escola superior de ensino de jornalismo no Brasil foi a Faculdade Cásper Líbero criada em 1947, em São Paulo.

A trajetória da Vanitas, que circulou entre 1930 a 1938, e da sua diretora e proprietária Nair Mesquita têm dois pontos de inflexão: a interrupção da circulação da revista devido a Revolução Constitucionalista de 1932 e ao arrendamento da revista para os Senhores Pereira de Carvalho, Araújo Faria e Leôncio de Sá Filho, “conhecidos jornalistas desta capital”, segundo a sessão “Notas”, do Correio de S. Paulo, na edição de segunda-feira, 20 de abril de 1936.

A revista era um retrato da vida social paulista e reverberou a Revolução Constitucionalista de 1932.

Vanitas contou com a colaboração de destacados intelectuais e artistas gráficos e plásticos da maior envergadura como Badenes, Dimitri Ismailovitch, Orn, Antônio Gomide, Belmonte e com fotografias de Max Rosenfeld, entre outros. O que fez dessa publicação periódica ilustrada uma das mais elogiadas pela qualidade gráfica,  conhecida em outros estados da federação e referenciada pela imprensa paulistana.

Vanitas era rica em propagandas, das Casas Pernambucanas ao Chocolate Falchi, da Sul-América Capitalização ao Organdy da Casa Allemã. A revista tinha uma página sob o título Livros assinada por Nair Mesquita, um Índice dos Anúncios e um Indicador Profissional. A revista era um retrato da vida social paulista com muitas notas sociais e uma coluna chamada Nata Social assinada por Paulo de Verbena, e uma Crônica de Moda assinada sob o pseudônimo de Jeanette. Vanitas reverberou a Revolução Constitucionalista de 1932. A revista era impressa por H. D. Oliveira, editor, o mesmo que publicou o primeiro livro moderno de fotografias do Rio de Janeiro, edição especial para a Comissão Brasileira dos Centenários de Portugal.

A edição em que Aliseris é apresentado ao público brasileiro, cuja capa é uma aquarela sobre papel, provavelmente de autoria do artista paulista Antônio Gomide (1895-1967), é uma pintura de inspiração art déco. Essa pintura remete a uma mulher de vestido longo cor de rosa com uma gola branca, ressaltando a feminilidade com a silhueta contornada pelo vestido, a mulher veste chapéu Floppy de palha com aba larga, a imagem dá a sensação de que a mulher está saindo de uma canoa, carregando anzóis, tendo como pano de fundo: o mar e, do lado direito da imagem, uma árvore frondosa.

Este artigo “San PabloAliseris”, sem autoria, deve ser de editoria da revista. A matéria compõe-se de quatro páginas, sendo que na primeira página do lado esquerdo consta, no alto à direita, uma reprodução fotográfica da obra São Sebastião e na legenda abaixo “Um dos melhores trabalhos do pintor uruguayo ALISERIS”. Na segunda página, no alto à esquerda, uma reprodução fotográfica do retrato de Aliseris, no original em preto e branco, mede 21,5 x 16 cm, do Estudio Foto de Arte Somogyi, localizado na Calle Rio Branco, número 1387, entre 18 de Julio y Colonia, em Montevideo, abaixo da fotografia, na legenda: “Entre as fotografias que nos foram dadas, dos trabalhos do grande pintor uruguayo ALISERIS, que actualmente nos visita, encontramos uma folha do seu diário de bordo que naturalmente ali foi parar por distração. Indiscretamente aqui a reproduzimos, para que os leitores vejam como ha gente que nos querem bem”.

A capital paulista vivia a herança de 1922 ou como chamou Nicolau Sevcenko “Orfeu extático na metrópole”, com a sua efervescência cultural, com inúmeras sociedades artísticas.

A narrativa do diário de bordo de Aliseris escrito no navio a vapor General San Martín, ocupou duas colunas e contém suas impressões sobre a chegada a São Paulo via porto de Santos, com destaque para a natureza exuberante, com suas plantas tropicais como bananeiras e palmeiras, enfim, a cobertura vegetal da mata atlântica com montanhas, ressaltando “la grandiosidad belíssima de este paisaje”.

A segunda parte da narrativa fala da febricitante metrópole, onde entendeu “que era una ciudad amante del arte”. A capital paulista vivia a herança de 1922 ou como chamou Nicolau Sevcenko “Orfeu extático na metrópole”, com a sua efervescência cultural, com inúmeras sociedades artísticas, como a SPAM e sua agitação cultural, com seus bailes, conferências, exposições, entre outras atividades. Aliseris escrevera “Presentimiento que confirme, al conocer la gran calidad de sus artistas, como la categoria de la “SPAM”, elogiando a atuação de Dona Olívia Guedes Penteado e de Dona Nair Mesquita no campo artístico com seus mecenatos.

E, termina o diário de bordo, evocando a fé: “(…) al desprendermos de Santos quedaba en nuestro corazón, grabada con un signo de fé y de esperanza, por la preciosíssima crucecita de luz roja con que, por las noches … la virgen de Monserrat, vigila nuestras vidas”.

Nas duas páginas subsequentes, está escrito “Exposição ALISERIS” com três reproduções de obras do pintor uruguaio: a primeira é um óleo sobre tela El holandês Dirk, na sequência, um óleo sobre tela Retrato de Raúl Arocena Capurro e um óleo sobre tela Mi hija Raquelita. No canto inferior da página está escrito “Obras do pintor uruguayo ALISERIS cuja exposição, será inaugurada por estes dias sob o patrocínio da SPAM que inaugura assim as atividades da nova directoria”.

Sobre os quadros reproduzidos em Vanitas, destacam-se o óleo sobre tela El holandés Dirk, medindo 2, 05 x 0, 75 cm, assinado no canto inferior direito “Aliseris”,  coleção desconhecida; o óleo sobre tela Mi hija Raquelita, de 1932, medindo 0, 90 x 0, 75 cm, coleção particular, Buenos Aires; o retrato de Raúl Arocena Capurro, um óleo sobre tela, medindo 0, 90 x 0, 75 cm, assinado no canto inferior direito “Aliseris 1934”, coleção desconhecida; e, o óleo sobre tela San Sebastián, assinado no canto inferior direito, medidas e coleção desconhecidas.

Estes quadros integraram exposições em São Paulo e Rio de Janeiro, em Montevideo, na Asociación Cristiana de Jóvenes e, em Buenos Aires, na Sociedad Amigos del Arte. A fortuna crítica das obras acima citadas, passaram pelo crivo de importantes personalidades do campo cultural latino-americano, com destaque para Mário de Andrade, o poeta e escritor Emilio Oribe, a poeta e escritora Juana de Ibarbouru, o jornalista e escritor António Soto (Boy) entre outros.

Este texto apontou para os trânsitos e as transferências culturais exercidos por Carlos Washington Aliseris, quer na condição de diplomata ou pintor. Poder-se-ia considerá-lo um « passeur culturel » com uma intensa atuação transnacional, transportando obras de arte para compor espaços expositivos em museus e galerias, ou revistas, como Vanitas ou Clarté que chegaram a Montevideo através de rotas marítimas ou fluviais e integraram a sua coleção.

O ponto nodal da discussão foi mostrar como a circulação transatlântica de obras de arte, se deu através dos impressos em formato de revistas que aportaram no Uruguai, um país localizado na margem oriental do Rio da Prata. O que mostra a importância de acervos privados e do colecionismo que nos legaram um patrimônio bibliográfico, as marcas tipográficas das revistas apresentam uma imbricação entre história, literatura, cultura impressa e artes visuais.

SOBRE A AUTORA

Maria de Fátima Fontes Piazza,  especialista em mediadores culturais Foto: Acervo pessoal

Respeitada pesquisadora na área de História dos Intelectuais, com ênfase nos estudos sobre cultura impressa, mediadores culturais e transferências culturais, a professora Maria de Fátima Fontes Piazza atua no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina. Este texto produzido  especialmente para o Jornalismo & História terá sequência no próximo mês de agosto, quando ela irá discorrer mais sobre a revista belga Clarté: Art et Art Décoratif, Architecture, a publicação do outro lado do Atlântico que também divulgou a obra do pintor uruguaio Carlos Washington Aliseris. Maria de Fátima Fontes Piazza é licenciada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestra em História pela Universidade de Brasília e Doutora em História Cultural pela UFSC.  Entre as suas publicações, destaca-se a organização do livro Mediações e Mediadores Culturais: Escritores, Artistas e Divulgadores (Casa Aberta Editora, 2021). É uma honra para o Jornalismo & História contar com uma colaboradora tão qualificada.

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