História,  Reportagem

Uma reportagem histórica para brindar ao centenário de João Cabral de Melo Neto

Neste nove de janeiro, uma reportagem histórica inspiradora celebra os 100 anos de João Cabral de Melo Neto. O texto Morte e Vida Sevilhana foi publicado inicialmente, em outubro de 2007, na edição especial do jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina intitulada Zero em Revista. De autoria da jornalista Luiza Libardi, o relato recompõe cenas das andanças do poeta pelas ruas de Sevilha, onde viveu na segunda metade da década de 1950. Posteriormente, parte da reportagem foi divulgada pelo site flamencoBrasil

Leia a reportagem na íntegra:

Morte e Vida Sevilhana

 

Luiza Libardi

 

 

Enquanto caminha ao longo da rua principal do centro de Sevilha, ao sul da Espanha, um homem de cabelos negros, meticulosamente penteados para o lado direito, parece absorto em seus pensamentos. Ele acaba de tomar um xerez no início da rua Sierpes e vai em direção ao último bar da calle. Mais à frente já se enxerga a plaza La Campana. Senta-se, sem perceber, bem no centro numérico da cidade, o lugar de onde parte a numeração de todas as ruas de Sevilha. Uma coincidência pouco notável se o homem descrito não fosse João Cabral de Melo Neto, o poeta brasileiro que inaugurou a construção funcional da poesia modernista, inspirado na arquitetura do francês Le Corbusier, e a cidade em que ele se senta não fosse aquela que mais o inspirou a escrever seus poemas.

Nascido em 1920, no Recife, João Cabral diz em um poema intitulado Auto Crítica que “só duas coisas conseguiram desferí-lo até a poesia: o Pernambuco de onde veio e o aonde foi, a Andaluzia. Um, vacinou do falar rico e deu-lhe a outra, fêmea e viva, desafio demente: em verso dar a ver Sertão e Sevilha.” O poema, composto por apenas oito versos, explica muito da obra de seu autor, diplomata e quinto ocupante da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras. Cabral encontrou na cultura andaluza uma fonte de admiração. “Todas as manifestações culturais espanholas me abalam profundamente.” diz ele em entrevista realizada em 1999 para o documentário Recife/Sevilha.

Se o objetivo desse pernambucano era “dar a ver em verso Sertão e Sevilha”, a poeta espanhola Cinta Massip, que traduziu a obra do autor para o catalão, acredita que ele se saiu muito bem, no que diz respeito à parte andaluza, “Cabral captou perfeitamente, como ninguém nunca conseguiu na literatura espanhola, o ritmo do flamenco. Isto é uma coisa única, que um personagem que conhece tão pouco este mundo capte com tanta sabedoria o que é o conceito da música flamenca, que é ritmo. Isso Cabral fez como ninguém, nem Federico García Lorca.” Ele que é até hoje o poeta espanhol mais lembrado quando se trata da arte flamenca, seus poemas são interpretados pelos grandes cantores e foi ele o autor da peça teatral Bodas de Sangre, que o cineasta Carlos Saura adaptou para o cinema em 1986. Ao comparar João Cabral com Garcia Lorca, a poeta espanhola revela que o tema flamenco em Cabral não foi apenas pedaço de sua obra, e sim uma manifestação apaixonada que marcou a própria história da arte flamenca, ainda que essa obra seja pouco conhecida.

O estilo da poesia Cabralina é inspirado na poesia espanhola que, segundo o poeta, “é a mais concretista do mundo”. Ele afirma que a forma espanhola começou a pesar em sua obra a partir do livro de poesias O Cão sem plumas que foi publicado em 1950. Três anos antes da publicação desse livro, o poeta havia sido transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. Lá, ele adquiriu uma pequena tipografia artesanal e publicou livros de poetas espanhóis e brasileiros. Talvez tenha sido onde teve o primeiro contato com o estilo de poesia que marcaria sua produção futura, incluindo o auto Morte e Vida Severina, publicado em 1956.

A cidade

Sentado no bar La Campana, ao lado da praça de mesmo nome, o poeta toma outro xerez. Sem mexer a cabeça, acompanha o caminhar de uma andaluza gitana. Ela acaba de sair da padaria, tira a rede que prendia seu coque e seus cabelos negros caem sobre os ombros sem que ela os perceba. A cabeça dessa moça expressa uma intenção esbelta que desafia. Pisando na calle Sierpes, passa pelo poeta, cujo pescoço permanece imóvel: são os olhos que a acompanham. Em um guardanapo, ele anota os seguintes versos:

Mulher da Panadería

Se viver te é curto,
como pequena é Sevilha,
que viver-te seja intenso
carregado qual nova pilha,
que pises em Sevilha:
levando a cabeça no alto,
e esbelta que desafia,
que sabe andar qualquer chão
em mulher da Panadería.

É no ano de 1956 que Cabral passa a residir em Sevilha, como cônsul adjunto. Para ele, é a cidade mais encantadora da Espanha. Sua filha, Inez Cabral, lembra que a relação dele era especificamente mais intensa com o bairro de Triana. “Muitas vezes quando ele ia buscar a mim e a minha irmã na escola ele dizia, olhando para as mulheres do barrio Santa Cruz, um bairro de classe alta, que as andaluzas eram muito feias. A fixação dele era por Triana, um bairro boêmio onde viviam as gitanas andaluzas.”

O professor de literatura Pablo del Barco, que traduziu alguns poemas de João Cabral para o espanhol, acha que foi a arquitetura da cidade, com as ruas estreitas cobertas de paralelepípedos, que atraiu o poeta brasileiro, assim como o clima alegre e boêmio de Sevilha. Já Inez Cabral acha que a relação de seu pai com Sevilha “era tesão mesmo. Eu atribuo a tesão. Não acho que há outra palavra para isso. Ele tinha uma história especial com as ciganas dele, com a aparência física delas.”

O flamenco

Do centro de Sevilha, o poeta sai caminhado em direção ao rio Guadalquivir: Ele atravessa a ponte Isabel II e, do outro lado do rio, está Triana. Em busca de mais um copo de Xerez, ele entra em um tablado qualquer. São quase nove horas da noite e só agora a cidade começa a escurecer. Dentro do bar há um palco onde um músico toca umas seguiryas. O poeta sente que seus batimentos cardíacos entraram em sintonia com os acordes do violão. Neste momento, uma bailaora que estava sentada ao lado do violonista levanta e começa a palmear. Ela realiza três giros seguidos e parece que seu corpo se torceu inteiro, agora parada suas mãos realizam movimentos suaves. Ao lado do poeta, um homem risca um fósforo, as chamas realizam o mesmo movimento suave da bailaora. O homem acende um cigarro e apaga o fósforo. O poeta retira novamente o papel do bolso e escreve os versos finais de um poema que ele viria a terminar mais tarde:


Estudos para uma Bailadora Andaluza

(..)
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
Como ela é, nas
seguiryas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeirafaísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.
(. .)

“A música me faz dormir; o flamenco me faz acordar.”

Essa frase foi dita por João Cabral no documentário Recife/Sevilha em 1999, numa tentativa de explicar o porquê do tema flamenco ter tomado conta de sua obra. O poeta conhecia os termos técnicos do baile flamenco e sabia a diferença entre os diferentes estilos, ou palos, da música flamenca e a região de onde vinham. “Ele sempre gostou de mergulhar nos estudos”, conta Inez. “Quando ele ficava apaixonado por alguma coisa, como ficou pelo flamenco, era mais fundo ainda o seu mergulho.”

O toureiro

A plaza de touros estava lotada, o público aguardava o momento de apreciar o grande toureiro. Manolete
segura o capote do seu lado esquerdo olhando para o público e de costas para o touro. Os espectadores, assim como Cabral, ficam angustiados. O touro se aproxima bufando, atravessa a arena fazendo tremer o chão onde Manolete está parado. O touro chega no toureiro, mas os espectadores não podem ver nada, pois o capote vermelho está cobrindo o encontro, até que o touro aparece por debaixo do pano do outro lado e Manolete levanta os dois braços pedindo aplausos. Cabral fecha o livro. Na capa, lê-se Manolete en la plaza de Toros de Lima. O poeta abre uma gaveta da escrivaninha de seu escritório em Sevilha, retira um papel e escreve:

Lembrando Manolete

Tourear; ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice
que se faz roçar pelafaixa
estreita de vida, ofertada
ao touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua
expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,
e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida
para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.

Cabral conta que enquanto morou em Sevilha conheceu um amigo próximo de Manolete, o toureiro mais conhecido da Espanha. Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, o Manolete, nasceu em Córdoba e morreu em 1947, durante uma tourada em Jaén. Levou uma cornada do touro que enfrentava e morreu momentos antes do touro. Há hoje na cidade uma estátua em homenagem a ele. O poeta adorava os movimentos do toureiro e fala com orgulho que o amigo de Manolete dizia que se ele ainda fosse vivo seria o melhor amigo de Cabral, pois nunca tinha visto na vida duas personalidades tão parecidas com as de Cabral e Manolete.

“Como o baile flamenco me interessava porque era um fazer no extremo, a corrida de touro também é fazer no extremo. O sujeito se expõe à morte.”

A morte

Cabral disse, certa vez, que se pudesse escolher um lugar para morrer, escolheria Sevilha ou o Rio de Janeiro. Morreu em um sábado, dormindo em seu apartamento no Rio de Janeiro. E por ser sábado à noite nenhum jornal conseguiu publicar a notícia de sua morte no dia seguinte. A Folha de S. Paulo conseguiu fazer circular em São Paulo um caderno especial em homenagem ao poeta, mas o resto do país ficou sem a informação. Apenas na terça-feira é que os jornais publicaram reportagens especiais sobre a morte do pernambucano. Por causa do feriado, muitos leitores de jornal só tomaram conhecimento na quarta-feira, quatro dias depois. Houvesse morrido em Sevilha, ele seria enterrado em Triana e os gitanos bailariam por taranto para lamentar a morte do maior poeta flamenco.

Glossário

Bailaora – bailarina de flamenco

Barrio – bairro

Calle – rua

Gitanos/gitanas – ciganos espanhóis, geralmente oriundos das famílias que deram origem à arte flamenca

Palos – nome dado aos diferentes estilos musicais do flamenco

Plaza – praça

Seguiryas – nome de um estilo musical do flamenco, Surgiu no começo do século XIX

Tablado – bar onde a principal atração é o flamenco

Taranto – nome de um estilo musical do flamenco. Ritmo mais lento, com temas sóbrios como a morte

VEJA TAMBÉM

O relato do último encontro do jornalista Gerson Camarotti com o poeta em 1998: O pesado ofício da escrita

O jornalista João Correia Filho comenta a influência de João Cabral de Melo Neto no seu trabalho fotográfico: A importância do livro A literatura como turismo

 

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