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Ana Paula Lacerda: “Realizar a Semana Euclidiana representa, para mim, participar da construção de um Brasil melhor”

Diretora de Cultura de São José do Rio Pardo fala do imenso desafio de organizar a 82ª edição desse evento e de como ele muda a vida das milhares de pessoas envolvidas nas suas múltiplas atividades

Por Bárbara Dal Fabbro

A trajetória de Ana Paula de Paulo Pereira de Lacerda nos mostra que não é preciso nascer rio-pardense para se tornar e identificar como euclidianista. O estudo sobre a obra do multifacetado Euclides da Cunha em suas mais diversas vertentes tem feito de São José do Rio Pardo (SP) a “meca do Euclidianismo” e trazido para o interior de São Paulo estudantes e pesquisadores de todo o Brasil e de muitas localidades mundo afora.

A entrevista que se segue com Ana Paula, diretora de Cultura do município e curadora do Casa de Cultura Euclides da Cunha, foi realizada logo após o término da histórica Semana Euclidiana 2020, totalmente online, e que extrapolou todas as expectativas do Movimento Euclidiano. O evento recebeu milhares de maratonistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Distrito Federal, mas também contou com participações internacionais advindas dos Estados Unidos e da Alemanha, que puderam participar e acompanhar a programação virtual da SE2020.

J&H – Gostaríamos de agradecer a disponibilidade de conversar conosco logo após a realização da Semana Euclidiana 2020, que marcou a história por ser a primeira realizada totalmente online. Uma curiosidade, você é rio-pardense? Estudou Euclides da Cunha quando criança? Participou de Semanas Euclidianas?

Ana Paula Lacerda – Sobre o meu vínculo com a cidade, eu não sou de São José, sou de São Paulo. A família da minha mãe é de São José, mas eu não tinha muito contato com a cidade. Sempre ouvi falar da Semana Euclidiana, até porque minha mãe foi participante, maratonista no ano de 1982. Ela contava sobre o evento, mas eu não o conhecia de perto; mesmo a cidade, vinha pouquíssimas vezes.

Em 2002, minha escola de São Paulo participava da Semana Euclidiana, e selecionou alguns alunos para virem para São José. Eu fui chamada, e como já tinha ouvido falar do Movimento, eu vim. Vim como maratonista, fiquei em alojamento, representando a minha escola, tudo como manda o figurino. E eu gostei muito, aprendi muito! E foi ali que eu comecei a ter o primeiro contato de fato com o Movimento Euclidiano aqui em São José. Não fui vencedora, não ganhei a classificação na SE, mas a experiência que eu ganhei para a minha vida foi de suma importância, não sei nem explicar…

Em 2003, minha mãe resolveu se mudar para São José do Rio Pardo, e eu e meus irmãos viemos com ela. Eu gostava muito de estudar, e de ler, e fui fazer um curso de Turismo, e precisava de um estágio, e foi quando eu comecei a frequentar a Casa Euclidiana de outra forma, comecei a fazer estágio e meu vínculo não acabou nunca mais. Por conta do curso de Turismo, entrei na Casa e ali fiquei por um tempo, depois fui contratada. Por um período sai de lá, voltei para São Paulo, depois fui morar no Rio Grande do Sul, fiz faculdade de História. Muitas idas e vindas meu vínculo com a Casa Euclidiana. E, finalmente, em 2013, eu passei no concurso como curadora da Casa Euclidiana. E em 2017 eu me tornei diretora de Cultura do município, que também é responsável pela Casa Euclidiana.

“Resolvemos manter a Semana Euclidiana, adaptando-a, para não deixar passar em branco esse período que é histórico, não só para São José, mas para o Brasil inteiro, pois é considerado o maior movimento histórico e cultural que homenageia um escritor, e que nunca foi interrompido.”

J&H – Como foi adaptar toda a programação para formato virtual devido à necessidade de isolamento social consciente determinada pelas autoridades de saúde, em meio à pandemia da Covid-19? Quais as maiores diferenças que sentiu?

Ana Paula Lacerda – A Semana Euclidiana é um desafio ano a ano. Antes de acabar uma SE, já estamos programando a próxima. E sempre dá aquele frio na barriga, do que fazer, como fazer… enfim, é um processo. E, para este ano, nossa Semana Euclidiana já estava formatada, com a programação pronta e, com a pandemia, levamos um susto. E agora? Fomos estudar diversas possibilidades, inclusive a de adiar a SE, como foi feito em 2009, quando teve a epidemia de gripe suína.

Envolvimento de Ana começou em 2002, quando a escola paulistana dela participou do evento Imagem: Arquivo Pessoal

Conversamos com o Conselho Euclidiano, com os professores dos ciclos de estudos… e pensamos, não há uma data específica para o “término” da pandemia da Covid-19, ou quando teremos uma vacina. E refletimos, temos tantos recursos tecnológicos, então resolvemos manter a Semana Euclidiana, adaptando-a, para não deixar passar em branco esse período que é histórico, não só para São José, mas para o Brasil inteiro, pois é considerado o maior movimento histórico e cultural que homenageia um escritor, e que nunca foi interrompido.

Seguimos essa linha, de não interromper, e fazer nos mesmos moldes, como se fosse presencial, porém, online. E foi um desafio muito grande, pois começamos a adaptar tudo: as aulas, os ciclos de estudos, as palestras, as conferências, os eventos. Começamos a imaginar e a remodelar toda a estrutura. E as pessoas não estavam esperando que faríamos.

J&H – O Movimento Euclidiano tem mais de cem anos e representantes em todo o território nacional e internacional. Acredita que esse formato possibilitou que mais pessoas geograficamente distantes participassem das atividades promovidas?

Ana Paula Lacerda – Tivemos muitos inscritos e, como as aulas estavam sendo online, os pais acabavam auxiliando seus filhos. Automaticamente, participavam das aulas. A SE nesse formato atingiu um público diferente daquele que estamos habituados. E a resposta foi extremamente positiva para o Movimento Euclidiano. Ela deu certo por ter um caráter único, um formato único, e essa tradição não vai acabar. Vai continuar! Quando “voltar tudo ao normal”, pós-pandemia, vamos continuar com a tradição, mas entramos em uma nova era! A era tecnológica. Teremos, sim, a parte tradicional, mas teremos a parte de modernização da SE também.

Após levantamento das inscrições, podemos afirmar que atingimos pessoas morando nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Distrito Federal. E também, participações internacionais advindas dos Estados Unidos e da Alemanha.

“Muitos professores vieram me procurar dizendo que sempre tiveram o sonho de participar da Semana e nunca puderam, e trabalhando menos ainda, e que poderiam participar por ser online.”

J&H – Qual o balanço da Diretoria de Cultura em relação à adesão, participação e engajamento nas publicações relativas à Semana Euclidiana 2020? Quais os prós e os contras desse formato em relação ao presencial?

Ana Paula Lacerda – Falar de Semana Euclidiana, é falar daquela relação humana que existe entre as pessoas, dos eventos, do desfile, muita gente participando. É uma Semana diferenciada, então não se esperava que fôssemos realizá-la. E quando saiu a programação, e as pessoas viram que seria algo acessível para todo mundo, a receptividade foi muito boa. Inclusive muitos professores vieram me procurar dizendo que sempre tiveram o sonho de participar da Semana e nunca puderam, e trabalhando menos ainda, e que poderiam participar por ser online.

E uma outra coisa interessante também foi a receptividade dos pais dos alunos que se inscreveram na Semana Euclidiana. Tivemos muitos inscritos, o que também foi uma surpresa! Fazendo o online, não sabíamos se daria certo ou não, como seria recebida pelas pessoas, se os alunos, mesmo os “de fora” se inscreveriam. No início da pandemia, fomos procurados para saber se haveria a SE2020, cidades “de fora”… foi muito bacana!

J&H – Qual a maior dificuldade encontrada para realizar a Semana Euclidiana nesse formato? Lidar com a tecnologia?

Ana Paula Lacerda – Nós não tivemos dificuldade com a questão tecnológica em si, mas a equipe toda teve que fazer uma preparação para conseguir atender a demanda da Semana Euclidiana. Nossa equipe, os funcionários, se organizou; cada pessoa ficou responsável por uma parte: internet, plataforma, redes sociais, enfim, foi uma interação muito bacana. Não tivemos dificuldades, tivemos desafios. E conseguimos cumpri-los.

“Reafirmamos nosso compromisso com São José do Rio Pardo, com a cultura brasileira. Continuaremos trabalhando para que isso não morra!”

J&H – É possível eleger um momento mais emocionante ou mais surpreendente ocorrido durante a SE2020?

Ana Paula Lacerda – Várias situações foram emocionantes na SE2020, mas o que eu acho que foi marcante, tanto para nós, como para a população rio-pardense, é que ninguém estava esperando o nosso desfile. E fizemos! Reunimos algumas pessoas ligadas ao Movimento Euclidiano, nos encontramos no altar da pátria, e com o auxílio de alguns atiradores e do sargento do Tiro de Guerra, descemos a rua 13 de Maio, para marcar o início da SE.

Como se disséssemos: aconteça o que acontecer, nossa Semana Euclidiana vai continuar. Independente de qualquer coisa. Foi o que fizemos no dia 9 de agosto pela manhã. E conforme íamos descendo, as pessoas não estavam esperando, então algumas delas saíram para a rua, os moradores, e se emocionavam. E faziam gestos de afirmação, de agradecimento por estarmos fazendo aquilo pela cidade. Foi algo marcante! Para nós que organizamos, para a população, e para a cultura da cidade. Reafirmamos nosso compromisso com São José do Rio Pardo, com a cultura brasileira. Continuaremos trabalhando para que isso não morra!

J&H – A SE2020 foi executada graças à captação junto a empresas via lei de incentivo à cultura estadual, o Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo. Gostaria que descrevesse como foi a adaptação do Programa de Ação à situação de pandemia, a interlocução junto à Secretaria nesse novo cenário e como se dará a prestação de contas.

Dois Brasis, o Brasil da época de Canudos e o Brasil recente foi o tema da aula virtual das professoras Rachel Bueno e Anélia Pietrani, transmitida, ao vivo, em 10 de agosto de 2020

Ana Paula Lacerda – Em relação ao ProAC, tivemos que fazer uma adaptação no projeto geral, colocando como seria realizado, descrevendo passo a passo, e criando novas formas para adaptação da SE. Fizemos então um “novo” projeto com essas adaptações, que foi encaminhado aos órgãos competentes para a aprovação. Após a aprovação começamos a organização da SE nesses novos moldes.

A Semana Euclidiana 2020 foi realizada graças à lei de incentivo à Cultura estadual, ProAC ICMS, do Governo do Estado de São Paulo, realizado pela COOPCESP (Cooperativa dos Produtores Culturais do Estado de São Paulo), com apoio da Prefeitura Municipal de São José do Rio Pardo. O valor total do projeto encaminhado, para ser executado de forma presencial, era de R$ 124.450,00. Destes, foram captados 36%, e essa verba foi suficiente para que a programação virtual da SE fosse realizada. Estamos agora na fase da prestação de contas e contamos com o auxílio de uma empresa que nos assessora, a COOPCESP.

“É um Movimento intelectual, literário, mas, acima de tudo, é um movimento social que impera e aproxima jovens estudantes de um Brasil desconhecido. De um Brasil rico, literário, desconhecido.”

J&H – 2020 marcou sua quarta Semana Euclidiana à frente da Diretoria de Cultura. Descreva-nos como foi a experiência de organizar, executar e manter vivo este legado euclidiano em Rio Pardo.

Ana Paula Lacerda – Por eu ter sido maratonista, por toda a minha trajetória dentro da Casa Euclidiana, desde o início como estagiária, e até hoje, que independente de eu estar como diretora de cultura do município ou não, eu ainda sou curadora da Casa Euclidiana. Sempre tive muito clara comigo a responsabilidade que eu tenho perante o Movimento Euclidiano. Tenho isso como uma missão, isso é muito forte em mim, esse legado deixado para a nossa geração. E o legado que eu, como curadora da Casa Euclidiana, tenho que deixar para as próximas gerações.

Tudo isso me mobilizou de forma interna, de não deixar esse Movimento morrer. É um Movimento que transforma a vida das pessoas. É um Movimento intelectual, literário, mas, acima de tudo, é um movimento social que impera e aproxima jovens estudantes de um Brasil desconhecido. De um Brasil rico, literário, desconhecido. É uma Semana que muda tanto o pensamento das pessoas que estão ali, e quando digo que muda o pensamento, são pessoas que estudam em escolas de periferia, e que nunca poderiam estar em um Movimento desta magnitude.

A nossa missão ali, vai muito além! É uma missão de transformação de vida! Fazer a Semana Euclidiana, para mim, é muito mais que um serviço, que minha profissão, vai muito além disso. Realizar a SE e participar desse Movimento, representa para mim, participar da construção de um Brasil melhor. Nesses últimos quatro anos à frente da direção de cultura do município, e na realização da SE (eu já a organizava antes, como curadora, e continuarei realizando), é muito forte.

E cada vez mais queremos nos aprimorar, crescer, porque é um benefício que fomenta a cultura da cidade, mas também é um evento que fomenta a questão social. É um evento que muda a vida das pessoas. Eu me sinto privilegiada por estar à frente desse evento e, ao mesmo tempo, me sinto numa responsabilidade tremenda à frente de algo que representa tão bem a cultura do nosso país. E me sinto muito orgulhosa e pode ter certeza que farei o que for possível e necessário para que esse Movimento não acabe em nossa cidade.

J&H – Diante da indefinição que ainda paira no cenário pandêmico, já se trabalha com nova Semana virtual? O que acredita que possa melhorar? A seu ver, a semana pode manter a força ou mesmo crescer no formato digital?

Ana Paula Lacerda – Nós já estamos trabalhando com a Semana Euclidiana do ano que vem, e com relação à questão tecnológica, ela estará inserida, sim, na SE. Estamos trabalhando-as de duas formas, tanto presencial quanto online. O formato tecnológico possibilitou que tivéssemos contato com pessoas que, talvez por conta da distância, não poderiam estar aqui em São José. A Semana Euclidiana de forma online aproximou estudantes, professores, pesquisadores do nosso evento, por ele ter acontecido de forma virtual.

“Quando ele passou por aqui, e fez a reconstrução da ponte, de fato, ele não ligou apenas dois pontos da cidade, ele ligou, na realidade, a população de São José do Rio Pardo com sua própria história.”

J&H – Como relacionaria Euclides da Cunha e sua obra com a identidade cultural dos moradores de São José do Rio Pardo?

Ana Paula Lacerda – São José do Rio Pardo poderia ser uma cidade como qualquer outra. Com suas características culturais, econômicas, mas como qualquer outra. A vinda de Euclides da Cunha para São José, mudou o rumo da história da cidade. E mudou completamente a identidade cultural da cidade. Quando ele passou por aqui, e fez a reconstrução da ponte, de fato, ele não ligou apenas dois pontos da cidade, ele ligou, na realidade, a população de São José do Rio Pardo com sua própria história.

A vinda dele para cá representou para o rio-pardense um ato heroico mesmo, por conta da ponte ter caído, e ele ter vindo reconstruí-la, e ter feito aquilo de uma forma tão rápida e tão precisa, criou um vínculo com a cidade muito grande. E esse vínculo que fez nascer o Movimento Euclidiano. Mas não um Movimento com o intuito de elevar o nome da cidade, foi com o intuito de agradecer e preservar a memória de Euclides da Cunha, e o que ele representou para a cidade.

E mais ainda, o que ele representava como cidadão brasileiro. As coisas que ele escrevia, o livro que ele escreveu, o que ele relatava, a pessoa íntegra que ele era. Serviu de modelo, e as pessoas o admiravam por conta disso. E com o assassinato dele, foi a morte de um filho. A cidade ficou tão perplexa com aquilo, que alguma coisa precisava ser feita para homenageá-lo. Não o Euclides da Cunha escritor renomado, intelectual, mas o amigo, a pessoa que veio para transformar a vida da cidade.

Ana na abertura oficial da Semana Euclidiana: presencial ou online, evento continuará contando com o empenho dela nos próximos anos

E transformou de fato. Isso ficou enraizado no rio-pardense. E, por isso, mudou completamente a maneira da população olhar para São José do Rio Pardo, de se vincular com sua própria história, e também a maneira com que a população “de fora” vê nossa cidade. O rio-pardense é cravado na verdade, carrega na própria história esse vínculo com Euclides da Cunha. É um orgulho para São José representar tão bem, ao longo desses 108 anos de Movimento Euclidiano, esse legado que foi deixado por Euclides e por seus amigos.

Aqui, o rio-pardense leva com ele a história de São José do Rio Pardo, e o que representou Euclides da Cunha para o nosso país. Essa formação da identidade cultural da cidade é extremamente rica e marcante em toda a população rio-pardense.

J&H – O que deixaria como recado para as pessoas que executarão e participarão das próximas Semanas Euclidianas?

Ana Paula Lacerda – A Semana Euclidiana transforma a vida de todas as pessoas. E eu não tenho nem recado a deixar para as pessoas que estarão à frente, até porque eu mesma continuarei à frente, independente de estar ou não na direção da cultura. Para os alunos, o recado que eu tenho é o seguinte: participem, explorem o máximo que conseguirem de conhecimento, porque independente de ganhar ou não a Maratona Euclidiana, o ganho para a vida, para a formação como pessoa, como cidadão, não tem preço. É algo que vai te transformar para o resto da vida.

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