Diálogos,  História,  Jornalismo

Na era da leitura em voz alta dos jornais

Por Mauro César Silveira

De cidade em cidade, de lugarejo em lugarejo, de terra em terra, as novidades aportavam em maços amarfanhados e empoeirados de papel. Durante quase três séculos, do alvorecer do XVII a meados do XIX, os jornais romperam as amarras da circulação restrita – seja pelo preço elevado de cada exemplar ou pela barreira do analfabetismo – através da força atávica da oralidade. Os mercadores de notícias percorriam comunidades da Europa e dos Estados Unidos, mesmo aquelas mais longínquas e inóspitas, para ler as notícias que julgavam mais interessantes ou impactantes, de diferentes regiões do mundo, em troca de moedas de baixo valor. Assim, as apresentações das histórias publicadas naquela fase incipiente da imprensa despontavam como espetáculos concorridos, capazes de atrair a atenção das pessoas, inclusive as mais desfavorecidas. Em cenários sempre buliçosos: das feiras e tabernas aos demais polos de aglomeração humana.

Tom Hanks no papel de mercador de notícias: figura histórica que precisa ser melhor estudada Imagem: Divulgação

Algumas características desse longevo negócio ambulante emergem no belo filme Relatos do mundo (em Portugal, recebeu o título mais preciso de Notícias do mundo, fiel ao original em inglês), que estreou na quarta-feira, dia 10, na plataforma de streaming Netflix, no Brasil e na Europa. Negligenciado na maioria dos estudos de história do jornalismo, a ação do mercador de notícias confere maior complexidade à abrangência da imprensa nos seus primórdios, o que representa um desafio metodológico ainda maior aos pesquisadores que se debruçam sobre as publicações impressas que circularam até o século XIX. Se os jornais costumavam estar nas mãos dos mais endinheirados, principalmente daqueles que orbitavam o poder político e econômico, os conteúdos se propagavam para um público mais amplo, abarcando pessoas analfabetas.

Partindo dessa premissa, não é descabido inferir que, em situações de maior controle da informação, havia interesse de que muitas representações ou ideias-imagens disseminadas nas páginas da imprensa atingissem muito mais gente. Nesse sentido, uma passagem do filme dirigido por Paul Greengrass é emblemática: ao ser abordado pelo todo-poderoso Mr. Farley, escoltado por seus capangas em área do Condado de Erath, no Texas, o leitor de jornais Jefferson Kyle Kidd (em mais uma convincente interpretação de Tom Hanks) é sequestrado para apresentar “notícias da nossa região”. Notabilizado por perseguição – e morte – de mexicanos, negros e indígenas, o mandachuva que se autodenominava como “Rei dos Búfalos” exige a leitura da sua publicação, o Erath Journal, que enaltece seus feitos “empreendedores” como negociante e explorador. Ao reagir à imposição de Mr. Farley, o personagem de Tom Hanks tensiona o ambiente e traz à luz o conflito de interesses que sempre constrange a atividade jornalística: “O senhor Farley pediu que eu lesse para vocês e gentilmente me entregou seu próprio jornal, o Erath Journal. Vejo que ele é um homem muito ocupado. Editor, redator, legislador, empresário. E todos vocês, pessoas de bem, trabalham para ele, mas, pelo que eu vejo, nada disso é notícia. Vou ler para vocês, então, uma história do The Harper’s Illustrated, de uma pequena e solitária cidade de Keel Run, na Pensilvânia, uma cidade, como milhares de outras, construída pelo trabalho de muitos, mas desfrutada por poucos…”

Filme é baseado em obra aclamada pela crítica estadunidense Imagem: Divulgação

A guinada acendeu a plateia: em improvisado plebiscito, os presentes decidiram por ouvir a história da cidadezinha da Pensilvânia, contrariando o chefão do Condado de Erath. A matéria lida por Kidd noticiava a revolta de sobreviventes de um incêndio em uma grande mina de carvão, provocado pelas precárias condições de segurança do local, e que levou à morte 19 trabalhadores. Essa passagem do filme baseado no livro News of the World, de 2016, da escritora estadunidense Paulette Jiles, enfatiza bem a batalha por corações e mentes desde o surgimento da imprensa. Mais do que isso: como, naquela época, o conteúdo da leitura de jornais, principalmente para quem não tinha dinheiro para comprar um exemplar ou era analfabeto, poderia fazer a diferença.

Ou não. Poderia, ao contrário, servir à mais grotesca manipulação, como o “Rei dos Búfalos” já fazia na sua publicação. No quadro brasileiro, um clássico exemplo disso é o da Semana Illustrada (1860-1876), do alemão Henrique Fleiuss, que se estabeleceu no Rio de Janeiro no século XIX. Uma das pioneiras revistas do país, suas edições serviam, sem nenhum pudor, aos maiores objetivos da Corte, que tinha nesse impressor, caricaturista e jornalista um dos mais assíduos convivas da mesa do imperador D. Pedro II. É bem provável que houve um esforço ainda maior para que as leituras públicas da Semana Illustrada fossem realizadas, especialmente nos anos da chamada guerra do Paraguai (1864-1870), pois a publicação de Fleiuss foi uma das que mais propagou o discurso oficial brasileiro nesse conflito militar. Naqueles tempos, como já apontou a pesquisadora Isabel Lustosa no livro O nascimento da imprensa brasileira, de 2004, os impressos se espalhavam pelo Rio de Janeiro por meio de práticas de oralidade, com leituras coletivas promovidas em vários pontos da cidade. Ou como observou a professora Marialva Barbosa, no livro História cultural da imprensa: Brasil, 1800-1900, lançado em 2010: “Numa sociedade oralizada por excelência, as letras impressas sempre foram mais ouvidas do que lidas.” E o contexto do período contribuía muito: o primeiro recenseamento da nossa história, datado de 1872, indicava um índice de apenas 15,75% de alfabetização dos 9.930.478 habitantes.

Erath Journal e seu “jornalismo” a favor: canal de informações manipuladas e distorcidas Imagem: Divulgação

Outro momento, ainda que muito breve, de Relatos do mundo oferece mais uma informação reveladora das primícias do jornalismo. É quando o jovem trabalhador John Calley, depois de se conscientizar da sua condição aviltante no Condado de Erath e decidir sair da região, pergunta, intrigado, como Kidd concebeu esse negócio que ele nem imaginava que existisse – a leitura de jornais sob micro pagamentos. “Eu era tipógrafo, tinha uma gráfica em San Antonio, imprimia jornais e perdi tudo durante a guerra civil (1861-1865)”, justificou o ex-capitão. O filme não deixa claro se Kidd editava os jornais que imprimia, mas desde o século XVII os impressores tornavam-se jornalistas e vice-versa. Ou os primeiros jornalistas procuravam os gráficos para uma eventual parceria. Como expressa Jorge Pedro Sousa no livro A génese do jornalismo periódico em Portugal: as Relações de Manuel Severim de Faria e a Gazeta “da Restauração”, disponível na web: “Na Europa seiscentista, coexistiam, na realidade, iniciativas jornalísticas de dois tipos: em alguns casos, eram os próprios impressores a ter a iniciativa de redigir e publicar gazetas, enquanto noutros casos os promotores, redatores e editores da publicação não coincidiam com os impressores”.

O livro News of the World, de Paulette Jiles, e o filme de Paul Greengrass  são obras que evidenciam as lacunas que ainda persistem na recomposição da já secular trajetória jornalística. Mas fazem mais pelos estudos da imprensa: animam novas pesquisas que possam contribuir para recontar a nossa história. Quanto mais remexermos o passado, mais reconhecemos as mazelas que perduram no tempo presente – e que, infelizmente, não são poucas.

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