História,  Jornalismo

As lições de uma história quase presente

Nova edição do manual de redação do jornal espanhol El País reflete o impacto do avanço da causa feminista nos últimos sete anos

Por Mauro César Silveira

A história recente também ensina – e muito. Na primavera europeia, exatamente no dia 29 de abril, o manual de redação do maior jornal da Espanha, o El País, chegará às livrarias acolhendo algumas lições da luta feminista, mais acentuada desde meados da década passada. A 23ª edição do Libro de Estilo, anunciada há menos de duas semanas, incorpora algumas lições adquiridas a partir de 2014, quando haviam sido atualizadas, pela última vez, as diretrizes do trabalho jornalístico, mas também os princípios editoriais que integram o “contrato ético” – expressão apreciada pelo diretor de redação Javier Moreno – com os leitores e leitoras, bem como com a sociedade em geral. Produzida pela Editorial Aguilar, de Madri, a encorpada nova versão impressa, com 648 páginas, apresenta novidades que balizam a escrita jornalística do periódico, como a recomendação para excluir abordagens sexistas nos textos e a exigência de uma linguagem que não contemporize com atos de violência machista.

No dia do anúncio da edição, em 21 de fevereiro, essas mudanças já entraram em vigor. Algumas delas são destacadas pelo escritor e jornalista espanhol Álex Grijelmo, mais uma vez o coordenador do Libro de Estilo. Dois pequenos avanços contemplam o gênero gramatical a ser utilizado para designar cargos ocupados na justiça e nos parlamentos municipais: juízas (juezas) e vereadoras (concejalas). Antes prevalecia a opção do gênero masculino, admitida pelas academias de língua espanhola. Também passarão a ser flexionadas no feminino as palavras que se referem a postos militares de mulheres: a partir de agora, elas são denominadas soldadas, cabas, sargentas e capitãs. O curioso é que a editoria de esporte estava à frente: as líderes de equipes de futebol vinham sendo chamadas de capitãs há algum tempo. Mas ainda ficam de fora o morfema e para se referir às pessoas, sem distinção de gênero, como menines (niñes), periodistes e amigues, e o emprego da letra xis e o símbolo arroba com o mesmo objetivo, como leitorxs e leitor@s.

O manual determina que o relato de feminicídios não pode significar mais um aumento desnecessário e inconcebível à dor das vítimas: “Em linguagem técnica, não devemos revitimizá-las”.

Aumentam bem mais os cuidados com a linguagem. O manual recomenda aos autores e autoras de textos uma revisão minuciosa com uma perspectiva igualitária. E, nesse sentido, aponta os principais objetivos a serem perseguidos: as assimetrias devem ser evitadas tanto nas palavras usadas como nos conteúdos abordados. Um exemplo claro: se em determinado contexto não se descreveria a roupa de um homem, por que fazer isso quando se trata de uma mulher? Também deve ser abolida a prática “abusiva” da escolha da palavra homem para várias situações envolvendo pessoas de mais de um gênero. Assim, o Libro de Estilo sugere a substituição de frases como “o homem chegará algum dia a Marte” ou a expressão “direitos do homem” por opções como “humanidade”, “gente”, “seres humanos” e “pessoa/pessoas”. E o vocabulário sexista deve ser deixado de lado, definitivamente, conforme vários casos relacionados: gestación subrogada (gestação alugada), vientre de alquiler (barriga de aluguel) e lío de faldas (confusão/problema de saias).

Imagem da redação do El País, em Madri, vazia durante a pandemia, ilustrou o anúncio do novo Libro de Estilo em 21 de fevereiro Foto: Carlos Rosillo

Um capítulo especial é dedicado às matérias que noticiam crimes de violência machista. O manual determina que o relato de feminicídios não pode significar mais um aumento desnecessário e inconcebível à dor das vítimas: “Em linguagem técnica, não devemos revitimizá-las”. O tratamento dispensado não pode ser o mesmo de qualquer outro ato dessa natureza (envolvendo homens, por exemplo) e se aconselha um texto que, em sua elaboração, ofereça o contexto e dados suficientemente sólidos que permitam passar do caso concreto ao problema geral. A ação verbal deve recair sobre o criminoso e não na vítima: assim, deve-se trocar a frase “uma mulher é assassinada por um homem” por “um homem assassina uma mulher”. E não devem ser consideradas como relevantes as opiniões dos moradores do local onde ocorreu o crime ou de alguns conhecidos do assassino e da vítima, “que, por falta de informação, tendem a apresentar a situação prévia como algo normal”. Além disso, estão proibidas a expressão “crime passional” e a propagação de rumores de possíveis causas da agressão violenta, que podem ser interpretadas como “justificativa” ou “desculpa” para o ato narrado, como “havia bebido”, “foi sozinha”, “usava saia justa”, entre outros.

Edição anterior do manual de redação do El País, de 2014: sexismo e violência machista fora da pauta

Ao relermos o prólogo da edição anterior, de março de 2014, constatamos que o mesmo atual diretor de redação, Javier Moreno, tocava em muitos temas contemporâneos e nos compromissos sociais assumidos pelo jornal desde sua primeira edição, na década de 70 do século passado, em período de transição para a democracia, após o fim do franquismo. Mas o sexismo e a violência machista não estavam em pauta. No final do texto, ele sintetizava a proposta como “um projeto de modernização e progresso social, de consolidação dos direitos dos cidadãos e do progresso econômico, de equidade e respeito às minorias, que é essencialmente o que compartilhamos com os espanhóis há décadas”. As mudanças introduzidas pelo Libro de Estilo deste 2021 – que podem ser consideradas tímidas, ou até muito tímidas, e algumas das anunciadas efetivamente são acanhadas -, indicam uma reação, sem nenhum grão de dúvida, ao passado mais recente. Nem a pandemia foi capaz de silenciar a voz do movimento feminista, cada vez mais forte. É possível que a próxima edição seja ainda mais sensível à causa das minorias, ao combate do machismo e da homofobia – entre tantas outras fobias e tantas demandas sociais. Tudo vai depender da crescente mobilização das pessoas, na luta incessante por seus direitos fundamentais. Só assim a história pode ser escrita de outra forma, verdadeiramente emancipadora, como agente de mudança do tempo presente.

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