História,  Jornalismo,  Reportagem

O virtual perpetuando o legado de Euclides da Cunha

Adaptação da SE2020 para o formato online rompeu barreiras e manteve vivo o Movimento Euclidiano

Por Bárbara Dal Fabbro

Ser maratonista e participar da Semana Euclidiana sempre foi um momento de encontros, conhecimento, pertencimento e alegria. Pode parecer estranho que crianças, adolescentes e adultos se unam, anualmente, de 9 a 15 de agosto, para estudar, debater e se aprofundar na obra de Euclides da Cunha. Sim, este é o mote da SE, mas não só ele. O Euclides estudado não é apenas o profissional, engenheiro, escritor e jornalista, mas o Euclides homem, com seus diversos interesses, valores morais e questionamentos sobre o mundo.

Iniciei minha trajetória como maratonista ainda criança, em São José do Rio Pardo, município encravado no extremo nordeste do Estado de São Paulo. Por uma semana, somos convidados a participar da Semana Euclidiana, um mergulho na herança deixada pelo escritor que mudou a forma como essa pequena cidade do interior paulista se identifica. É muito plausível dizer que existe uma São José antes e depois de Euclides. A cidade realmente para e respira o legado euclidiano.

Casa de Cultura ocupa a antiga residência de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo Imagem: Facebook da Casa de Cultura Euclides da Cunha

As maratonas de estudos sempre foram pautadas pela troca de conhecimentos em ciclos de estudos, com professores, pesquisadores e estudiosos que migram de diversos estados do país, e alguns de outros países, a fim de transmitir seu entendimento sobre a obra de Euclides da Cunha. Além disso, a possibilidade de conviver com estudantes vindos dos quatro cantos do Brasil enriquece, e muito, o evento.

Com a pandemia do coronavírus, a Covid-19, a equipe da diretoria de Cultura e o Conselho Euclidiano se viram frente a um desafio. Não seria possível manter a SE como acontece, ininterruptamente, há mais de 100 anos, devido às orientações sanitárias para distanciamento social e isolamento consciente.

A SE, hoje, é realizada graças à captação junto a empresas possibilitada pela lei de incentivo à cultura estadual, o Programa de Ação Cultural (ProAC), e o projeto encaminhado já havia sido aprovado e a captação iniciada. Portanto, com o intuito de manter o legado vivo, optou-se pela adaptação para o formato digital e a proposição de uma programação que desse continuidade aos estudos e eventos tradicionais da Semana, de forma virtual.

Como não foi possível realizar o desfile tão esperado, alguns dos pilares do movimento saíram às ruas, uniformizados e protegidos por máscaras, para simbolizar a “vida” do Movimento! A resiliência e a persistência em continuar mesmo em um momento tão incerto.

E assim foi feito, o Movimento Euclidiano, considerado como o mais antigo evento cultural do Brasil, seguiu homenageando Euclides da Cunha, em sua octagésima segunda edição, com a temática “São José do Rio Pardo: ponte de travessias culturais”. O início, em 9 de agosto, já se mostrou mais do que especial. Como não foi possível realizar o desfile tão esperado, alguns dos pilares do movimento saíram às ruas, uniformizados e protegidos por máscaras, para simbolizar a “vida” do Movimento! A resiliência e a persistência em continuar mesmo em um momento tão incerto.

Os ciclos de estudos propostos dividem os estudantes por idade. Então, tanto alunos do 5º. ano (faixa etária dos 10 anos) quanto professores e pesquisadores mergulham no tema da Semana e recebem uma grade de aulas que irá contemplar sob diversos olhares e áreas do conhecimento o que está sendo proposto como tema central de debate. Em 2020, na impossibilidade de salas de aula presenciais, foram criados grupos de WhatsApp que conectavam os alunos dos ciclos a um coordenador que encaminhava os materiais e os horários das aulas/lives.

Foi incrível manter a conexão com professores e colegas maratonistas de todos os estados brasileiros, e também diretamente de alguns países, para perpetuar os estudos nesse formato que nos manteve protegidos e separados, porém, nos uniu, como sempre, na dedicação à obra euclidiana. Rever Nicola, Rachel, Marcos, Cidinha, Ary, Guilherme… todos brilhantes professores e apaixonados pela obra euclidiana é sempre um “retorno” ao lar, mesmo que não fisicamente.

O excelente trabalho como repórter de Euclides da Cunha animou a live das jornalistas Giselle Torres Biacco e Neide Duarte em 13 de agosto de 2020

A experiência das lives e eventos transmitidos ao vivo exigiu muito planejamento e adaptação dos organizadores da Semana Euclidiana, mas acredito que essa vivência tão intensa tenha sido recompensadora tanto para eles quanto para todos que participaram da SE2020. Como expressa a diretora de Cultura e curadora do Casa de Cultura Euclides da Cunha, Ana Paula de Paulo Pereira de Lacerda, em entrevista também publicada hoje aqui no Jornalismo & História.

No dia 2 de dezembro, a Casa de Cultura Euclides da Cunha, de São José do Rio Pardo (SP), publicou o resultado da Maratona Intelectual 2020, durante transmissão pelo Facebook, com a participação de professores do Conselho Euclidiano. O tema da Semana Euclidiana 2021 também foi revelado: “Os rios e Euclides da Cunha – uma odisseia literária fluvial”.

A expectativa da direção da Casa de Cultura é de que, para o próximo ano, as atividades possam ser realizadas de forma presencial, o que dependerá das questões relacionadas ao controle da pandemia. Independente da forma com que for realizada, o Movimento Euclidiano se manterá vivo e a participação dos maratonistas continuará a movimentar São José do Rio Pardo, mesmo que virtualmente.

VEJA MAIS

O bom jornalismo do clássico de Euclides da Cunha

Amazônia, a sinfonia inacabada do celebrado autor de Os Sertões

 

 

 

 

COMPARTILHE

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *